Os erros de medicação continuam sendo uma das principais causas de eventos adversos em serviços de saúde, com potencial para gerar danos significativos aos pacientes, prolongar internações e aumentar custos assistenciais. No contexto perioperatório, esses riscos se tornam ainda mais relevantes devido à complexidade do ambiente cirúrgico, ao uso frequente de medicamentos de alta vigilância (MAV) e à necessidade de decisões rápidas em múltiplas etapas do cuidado.
Diante desse cenário, cresce o interesse em compreender o papel do farmacêutico clínico na mitigação desses erros ao longo da jornada cirúrgica.
O que o estudo analisou
A revisão sistemática avaliou evidências disponíveis sobre intervenções lideradas por farmacêuticos em ambientes perioperatórios, incluindo etapas pré, intra e pós-operatórias. Foram analisados 16 estudos com diferentes desenhos metodológicos, envolvendo mais de 6.000 pacientes em diversos contextos cirúrgicos.
O objetivo deste estudo foi avaliar o impacto da atuação farmacêutica na ocorrência de erros de medicação no período perioperatório, bem como caracterizar os tipos de intervenções farmacêuticas mais frequentemente realizadas.
Principais intervenções farmacêuticas
Os resultados mostram que as intervenções são, em sua maioria, multifatoriais e distribuídas ao longo de toda a jornada do paciente. Entre as principais estratégias identificadas estão:
- Conciliação medicamentosa na admissão e alta
- Revisão de prescrições e recomendações terapêuticas
- Educação de equipes de saúde
- Orientação direta ao paciente
- Monitoramento e otimização da farmacoterapia
A conciliação medicamentosa foi a intervenção mais frequente, presente na maioria dos estudos analisados.
Esse conjunto de ações reforça o papel do farmacêutico como profissional capaz de atuar de forma transversal, conectando diferentes etapas do cuidado.
Impacto nos erros de medicação
De forma geral, os estudos apontam que a atuação do farmacêutico está associada à redução de erros de medicação em diferentes momentos do cuidado:
- Antes da internação: redução significativa de discrepâncias e erros na lista de medicamentos
- Durante a hospitalização: atuação farmacêutica está associada à melhora da adequação terapêutica e à redução de prescrições inadequadas.
- Na alta hospitalar: diminuição de inconsistências e problemas relacionados à continuidade do tratamento
Em alguns estudos, a proporção de pacientes com pelo menos um erro caiu de forma expressiva quando houve intervenção farmacêutica.
Além disso, intervenções relacionadas à otimização terapêutica (como ajuste, suspensão ou substituição de medicamentos) foram recorrentes e associadas a melhorias nos processos assistenciais.
Tipos de erros identificados
Os erros de medicação foram classificados, de forma geral, em duas categorias:
- Erros por omissão: ausência de medicamentos necessários, falhas na continuidade terapêutica
- Erros por comissão: dose incorreta, escolha inadequada do fármaco, via ou frequência erradas
A atuação do farmacêutico demonstrou potencial para reduzir ambos os tipos, embora os resultados sejam heterogêneos entre os estudos.
Limitações e desafios identificados
Apesar dos resultados positivos, a revisão destaca limitações importantes:
- Baixa qualidade metodológica de parte dos estudos
- Falta de padronização na definição e classificação de erros
- Heterogeneidade nos modelos de intervenção
- Pouca descrição sobre como as intervenções foram estruturadas
Esses fatores dificultam comparações diretas e limitam a generalização dos achados.
Outro ponto relevante é a ausência de estudos avaliando a atuação do farmacêutico no intraoperatório, etapa considerada crítica e com alto risco de erros, mas ainda pouco explorada.
Interpretação dos achados
Os dados sugerem que a presença do farmacêutico no perioperatório pode contribuir para maior segurança no uso de medicamentos, especialmente em momentos de transição do cuidado – como admissão e alta – onde há maior risco de falhas.
Além disso, o estudo reforça que intervenções contínuas e integradas ao longo de toda a jornada do paciente tendem a apresentar melhores resultados do que ações pontuais.
Outro aspecto relevante é o papel do farmacêutico na otimização da farmacoterapia, particularmente importante em pacientes cirúrgicos que frequentemente utilizam múltiplos medicamentos para condições crônicas.
Conclusão
A evidência disponível indica que intervenções lideradas por farmacêuticos têm potencial para reduzir erros de medicação no perioperatório, contribuindo para maior segurança do paciente e melhor qualidade assistencial.
No entanto, ainda há necessidade de estudos mais robustos, com metodologias padronizadas e melhor descrição das intervenções, para consolidar esse papel e orientar sua implementação em larga escala.
Acesse o artigo através do link: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11731391/


