A terapia intravenosa é amplamente utilizada em unidades de cuidados intensivos pediátricos (UCIP), sendo essencial para o tratamento de pacientes em estado crítico. No entanto, o uso frequente de cateteres venosos periféricos está associado a um risco elevado de complicações, especialmente a flebite, condição que pode comprometer a segurança do tratamento e o capital venoso da criança.
Um estudo publicado na Farmacia Hospitalaria avaliou a padronização e caracterização das diluições intravenosas mais utilizadas em pacientes críticos pediátricos, analisando propriedades físico-químicas dos medicamentos e sua relação com o risco de flebite e a escolha do dispositivo de acesso vascular mais adequado.
Por que a flebite é uma preocupação na pediatria crítica?
A flebite é definida como a inflamação da veia, geralmente associada à administração intravenosa de medicamentos. Em pacientes pediátricos, o risco é maior devido a características como:
- veias de menor calibre e mais frágeis,
- maior dificuldade de imobilização,
- maior sensibilidade do endotélio vascular.
Estudos citados pelos autores indicam que a taxa de complicações relacionadas a cateteres venosos periféricos em crianças pode variar entre 34% e 56%, aumentando após os primeiros dias de permanência do dispositivo. Essas complicações podem levar à interrupção do tratamento, aumento do tempo de internação e maior morbidade.
O papel do pH e da osmolaridade nas complicações intravenosas
Entre os fatores relacionados ao tratamento intravenoso, o estudo destaca a importância do pH e da osmolaridade das soluções. Quando esses parâmetros se afastam dos valores fisiológicos do sangue (pH entre 7,35 e 7,45 e osmolaridade entre 285 e 310 mOsm/L), o risco de irritação vascular e flebite aumenta.
O trabalho mostrou que:
- 25% das diluições analisadas apresentaram pelo menos um fator de alto risco para flebite (osmolaridade acima de 600 mOsm/L ou pH abaixo de 4 ou acima de 9);
- 35% foram classificadas como de risco intermediário;
- apenas uma parcela menor apresentou risco baixo.
Esses dados reforçam que nem todas as diluições intravenosas são equivalentes do ponto de vista de segurança vascular, mesmo quando utilizadas rotineiramente na prática clínica.
Medicamentos vesicantes e risco adicional
Além do pH e da osmolaridade, o estudo avaliou o poder vesicante dos medicamentos, ou seja, sua capacidade de causar lesão tecidual em caso de extravasamento. Apenas 10% dos fármacos analisados foram classificados como vesicantes, entre eles aciclovir, fenitoína e vancomicina.
Mesmo assim, os autores ressaltam que medicamentos não classificados como vesicantes também podem causar dano endotelial quando administrados em concentrações elevadas ou com propriedades físico-químicas desfavoráveis.
Padronização das diluições e escolha do acesso vascular
Um dos principais objetivos do estudo foi orientar a escolha do dispositivo de acesso vascular com base nas características das diluições intravenosas e na duração prevista do tratamento. Para isso, os autores utilizaram um algoritmo que considera:
- pH e osmolaridade da solução,
- poder vesicante do medicamento,
- tempo estimado de terapia intravenosa,
- estado do capital venoso do paciente.
Com base nessa análise, foram identificadas 17 diluições associadas a 9 medicamentos que não deveriam ser administradas por cateter venoso periférico, mesmo em tratamentos de curta duração, devido ao risco aumentado de flebite.
Implicações para a prática clínica
Os resultados do estudo indicam que a padronização das diluições intravenosas, aliada ao conhecimento de suas propriedades físico-químicas, pode:
- reduzir o risco de flebite e extravasamento,
- orientar de forma mais segura a escolha entre cateter periférico, linha média ou cateter central,
- preservar o capital venoso de pacientes pediátricos críticos,
- aumentar a segurança e a efetividade da terapia intravenosa.
Os autores destacam que a decisão sobre o acesso vascular deve ser individualizada e integrada à avaliação clínica global do paciente, não se limitando apenas às características do medicamento.
Conclusão
O estudo evidencia que pH, osmolaridade e poder vesicante são fatores determinantes no risco de complicações associadas à terapia intravenosa em pacientes críticos pediátricos. A padronização e caracterização das diluições representam uma estratégia importante para apoiar decisões clínicas, melhorar a segurança do tratamento e reduzir eventos adversos relacionados ao uso de cateteres venosos.
Acesse o artigo da Farmacia Hospitalaria no link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-estandarizacion-caracterizacion-diluciones-administradas-por-articulo-S1130634325000510



