A Unidade de Terapia Intensiva é, por definição, um ambiente de alta complexidade clínica, decisões rápidas e risco elevado. A polifarmácia está presente em grande parte das internações. O farmacêutico clínico deve ter conhecimento sobre as alterações fisiopatológicas em pacientes críticos que influenciam parâmetros farmacocinéticos, como volume de distribuição e clearance. A partir disso, deve ser avaliado o fármaco utilizado e a necessidade de dose otimizada ou ajustes de dose.
Um artigo publicado na Intensive Care Medicine apresenta dez razões fundamentadas em evidência para a presença ativa de profissionais de farmácia na terapia intensiva.
Mais do que listar atribuições, o texto organiza dados clínicos, econômicos e assistenciais que ajudam a compreender o impacto concreto dessa atuação.
Evidência associada a desfechos clínicos
Um dos pontos centrais do artigo é a associação entre a presença do farmacêutico na equipe multiprofissional e melhores desfechos clínicos. Uma meta-análise citada pelos autores demonstrou redução de mortalidade (OR 0,78) e diminuição do tempo de permanência na UTI em pouco mais de um dia.
Os próprios autores reconhecem a predominância de estudos observacionais e o risco de viés inerente a esse desenho metodológico. Ainda assim, a consistência dos achados ao longo de diferentes contextos institucionais sugere que a integração do farmacêutico não é apenas complementar, mas potencialmente modificadora de desfecho.
Segurança do paciente como eixo estruturante
A maioria dos erros relatados em UTI é relacionada a medicamentos. O paciente crítico recebe múltiplos fármacos, frequentemente com ajustes dinâmicos baseados em função renal, hemodinâmica e suporte extracorpóreo.
O artigo destaca que cerca de 75% dos pacientes internados em UTI estão expostos a pelo menos um erro de medicação durante a internação. Nesse cenário, a atuação do farmacêutico em farmacologia e terapêutica, farmacotécnica hospitalar, farmacocinética clínica, farmacovigilância, identificação de interações medicamentosas e monitoramento de eventos adversos torna-se estruturante para a segurança assistencial.
Mesmo com sistemas eletrônicos de prescrição, a limitação dos módulos de decisão clínica – especialmente quando não validados especificamente para terapia intensiva – reforça a necessidade da análise crítica humana.
Otimização terapêutica em ambiente de alta variabilidade
A terapia intensiva é o ambiente onde a farmacocinética mais se distancia do modelo teórico. Expansão de volume após ressuscitação volêmica, disfunção renal aguda, hipoalbuminemia e suporte com ECMO alteram profundamente a distribuição e a depuração de medicamentos.
O artigo enfatiza o papel do farmacêutico no ajuste fino da farmacoterapia, especialmente em antimicrobianos, imunossupressores e anticonvulsivantes. A monitorização terapêutica de medicamentos (TDM) é descrita como ferramenta essencial para equilibrar eficácia e toxicidade.
Além disso, menciona-se a implementação de estratégias de model-informed precision dosing, que utilizam modelos farmacocinéticos populacionais integrados a softwares clínicos. Embora promissora, essa abordagem ainda carece de maior comprovação de impacto direto em desfechos clínicos.
Reconciliação medicamentosa e transições de cuidado
A transição entre setores hospitalares é um momento de alto risco para erros. A reconciliação medicamentosa conduzida por farmacêuticos na admissão e na alta da UTI reduz descontinuações não intencionais e permite revisão crítica da farmacoterapia prévia.
O artigo destaca que esse processo não apenas corrige omissões, mas também cria oportunidade para desprescrição racional, especialmente diante do risco de polifarmácia pós-UTI.
Papel estratégico do técnico de farmácia
De forma interessante, os autores ampliam a discussão ao incluir técnicos de farmácia como parte essencial do cuidado intensivo. A reconstituição segura de medicamentos parenterais, avaliação de compatibilidades intravenosas e organização de estoques impactam diretamente na carga de trabalho da enfermagem e na sustentabilidade do serviço.
O conceito de serviços “ready to administer” também é abordado como estratégia para reduzir desperdício e minimizar o impacto ambiental.
Pesquisa e produção de conhecimento
Outro ponto relevante é o protagonismo do farmacêutico na pesquisa clínica em terapia intensiva. Estudos sobre antimicrobianos, complexidade medicamentosa e intervenções estruturadas têm sido liderados ou co-liderados por farmacêuticos, fortalecendo a integração entre prática clínica e produção científica.
Essa atuação transcende o suporte assistencial e posiciona o profissional como agente de inovação e melhoria contínua.
Educação e padronização baseada em evidência
O farmacêutico é descrito como elemento catalisador na implementação de diretrizes clínicas. A presença nos rounds multiprofissionais permite educação contínua da equipe e atualização baseada em evidência, reduzindo variações indesejadas na prática.
Relação custo-benefício
Os dados econômicos apresentados são expressivos. Estudos citados apontam redução na duração da ventilação mecânica e estimativas de retorno financeiro positivo por intervenção farmacêutica aceita. Revisões econômicas sugerem benefício múltiplo para cada unidade monetária investida em serviços de farmácia na terapia intensiva.
Embora análises de custo possam variar conforme o sistema de saúde, o conjunto de evidências reforça que a atuação farmacêutica não representa apenas custo adicional, mas potencial investimento com retorno clínico e financeiro.
Conclusão
O artigo não apresenta uma defesa retórica da presença do farmacêutico na UTI, ele organiza evidências que sustentam essa presença como componente estruturante do cuidado intensivo.
Ao analisar mortalidade, eventos adversos, otimização terapêutica, reconciliação medicamentosa, pesquisa, educação e impacto econômico, os autores constroem uma visão integrada da farmácia clínica na terapia intensiva.
Muito mais do que apoio operacional, a presença do farmacêutico na UTI emerge como elemento de governança clínica, segurança do paciente e qualificação da tomada de decisão em um dos ambientes mais críticos da assistência hospitalar.
Confira o artigo completo no link: https://link.springer.com/article/10.1007/s00134-023-07285-4


