O uso prolongado de opioides no manejo da dor crônica não oncológica é um tema sensível e complexo, que envolve riscos clínicos relevantes, barreiras assistenciais e decisões terapêuticas que exigem acompanhamento contínuo. Um estudo recente realizado no Reino Unido analisou fatores associados à interrupção da terapia opioide de longo prazo na atenção primária, trazendo evidências que ajudam a compreender por que alguns pacientes conseguem suspender o uso desses medicamentos enquanto outros permanecem em tratamento prolongado.
Embora o estudo tenha sido conduzido em outro sistema de saúde, seus achados dialogam diretamente com desafios enfrentados também no Brasil, especialmente no contexto da atenção primária, da farmácia clínica e da segurança do paciente.
O que o estudo avaliou
A pesquisa analisou dados de mais de 570 mil pacientes adultos com dor crônica não oncológica acompanhados na atenção primária do Reino Unido ao longo de duas décadas. Foram considerados usuários de terapia opioide de longo prazo aqueles que receberam opioides de forma contínua por pelo menos 90 dias.
O objetivo foi identificar características sociodemográficas, clínicas, comportamentais e farmacológicas associadas à maior ou menor probabilidade de interrupção do uso de opioides por um período mínimo de seis meses.
Principais fatores associados à interrupção do uso de opioides
Os resultados mostraram que a interrupção da terapia opioide de longo prazo foi relativamente rara, ocorrendo em pouco mais de 5% dos pacientes no primeiro ano após a caracterização do uso prolongado. Ainda assim, alguns fatores se destacaram:
Maior chance de interrupção
- Uso de opioides fracos e de curta duração
- Doses médias diárias mais baixas
- Uso concomitante de anti-inflamatórios não esteroidais
- Não tabagismo ou cessação do tabagismo
- Presença de osteoartrite ou ansiedade
Menor chance de interrupção
- Idade mais avançada
- Doses mais elevadas de opioides
- Transtornos por uso de substâncias
- Dependência alcoólica
- Comorbidades psiquiátricas mais complexas, como esquizofrenia e epilepsia
Esses achados reforçam que a interrupção do uso de opioides não depende apenas da prescrição inicial, mas de um conjunto de fatores clínicos, comportamentais e contextuais, muitos deles potencialmente modificáveis ao longo do acompanhamento.
Paralelos com a realidade brasileira
No Brasil, o uso de opioides para dor crônica também é motivo de atenção crescente. Diretrizes nacionais, como as orientações da Anvisa e recomendações de sociedades médicas, reforçam a necessidade de cautela na prescrição prolongada, avaliação periódica de risco-benefício e preferência por abordagens multimodais para o manejo da dor.
Assim como observado no Reino Unido, a prática clínica brasileira enfrenta desafios semelhantes:
- dificuldade de acesso a terapias não farmacológicas;
- tempo limitado de consulta;
- receio de descompensação da dor ou sintomas de abstinência;
- pacientes com múltiplas comorbidades clínicas e psiquiátricas.
Nesse cenário, a interrupção segura da terapia opioide exige planejamento individualizado, acompanhamento próximo e integração multiprofissional.
O protagonismo do farmacêutico clínico
Independentemente do país, o estudo reforça um ponto central: o farmacêutico clínico ocupa posição estratégica na gestão do uso de opioides de longo prazo.
No contexto hospitalar e ambulatorial, esse profissional pode contribuir de forma decisiva ao:
- identificar pacientes em uso prolongado e em maior risco;
- Idade, comorbidades, posologia, função renal, função hepática, interações medicamentosas e uso concomitante de outros fármacos;
- apoiar equipes médicas na construção de protocolos de redução gradual (tapering);
- Incentivar uso racional de: AINEs (quando seguros), terapias adjuvantes
e estratégias multimodais; - orientar pacientes sobre expectativas realistas, riscos e sinais de alerta;
- promover o uso racional de medicamentos e a segurança do paciente.
No Brasil, esse papel está alinhado às atribuições da Farmácia Clínica e da Farmácia Hospitalar, em que o farmacêutico atua diretamente no cuidado ao paciente, promovendo uso racional e seguro dos medicamentos, incluindo opioides, como parte essencial da assistência farmacêutica e farmacoterapia hospitalar. Tal atuação está em consonância com as diretrizes da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar e Serviços de Saúde (SBRAFH), bem como com as boas práticas preconizadas por órgãos reguladores e sociedades científicas.
Implicações para a prática assistencial
Os achados do estudo indicam que estratégias para interrupção do uso de opioides devem ir além de decisões pontuais. Intervenções personalizadas, incentivo a mudanças de estilo de vida, escolha criteriosa do tipo de opioide e uso de terapias adjuvantes fazem parte de um cuidado mais seguro e efetivo.
Para pacientes com maior complexidade clínica ou vulnerabilidade social, o acompanhamento deve ser ainda mais próximo, reforçando a importância de equipes multiprofissionais e de processos bem estruturados de cuidado.
Conclusão
A interrupção da terapia opioide de longo prazo na dor crônica não oncológica é um desafio compartilhado por diferentes sistemas de saúde. O estudo realizado no Reino Unido oferece evidências relevantes que dialogam com a realidade brasileira e reforçam a necessidade de abordagens individualizadas, seguras e baseadas em evidência.
Nesse contexto, o farmacêutico clínico se consolida como um agente central na promoção do uso racional de opioides, na prevenção de riscos e no apoio às decisões terapêuticas, contribuindo para uma assistência mais segura, ética e centrada no paciente.
Você pode acessar o estudo citado através do link: https://www.bjanaesthesia.org/article/S0007-0912(25)00626-9/fulltext



