A sustentabilidade ambiental tem ganhado espaço no debate sobre processos e práticas da saúde, especialmente em hospitais, onde o volume de resíduos e consumo de materiais é elevado. No contexto da Farmácia Hospitalar, o reenvasado de medicamentos (prática comum para adequar apresentações comerciais à dispensação por dose unitária) representa um ponto crítico tanto pela produção de resíduos quanto pelo gasto de tempo e recursos.
Um estudo publicado na Farmacia Hospitalaria avaliou o impacto da substituição de medicamentos reenvasados por apresentações já comercializadas em dose unitária. O projeto, conduzido em 15 hospitais públicos e posteriormente ampliado para mais de 170 centros, integra ações do programa SEFH +Sostenible, alinhado aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Por que o reenvase é uma preocupação ambiental?
O processo de reenvasar medicamentos exige a utilização de materiais como papel, plástico, fitas adesivas e etiquetas. Além disso, demanda o uso de máquinas específicas e horas de trabalho de equipes profissionais. Segundo o estudo, os reenvasos também aumentam o risco de erros de medicação, especialmente quando a uniformização de embalagens leva à isoaparência – fator que pode comprometer a segurança do paciente.
Para reduzir esse impacto, a iniciativa NO REPACKAGING unless necessary buscou promover o uso de medicamentos já disponíveis em formatos unitários e ampliar o acesso a uma base de dados atualizada com mais de 2.000 apresentações identificadas de forma individual, atualizada mensalmente.
Como o projeto foi estruturado
O estudo descreve a combinação de duas frentes principais:
1. Criação de uma base de dados robusta
Reunindo mais de 2.000 medicamentos disponíveis em dose unitária e atualizados mensalmente, permitindo que hospitais identifiquem rapidamente alternativas aos medicamentos que exigiriam reenvaso.
2. Implementação de um sistema automatizado
Um algoritmo passou a analisar compras e consumo de medicamentos, identificando oportunidades para substituir reenvasos por apresentações comerciais. O sistema pôde ser adotado individualmente por hospitais ou de forma centralizada por sistemas regionais ou grupos privados.
Principais resultados do projeto
Nos 15 hospitais monitorados, a substituição de medicamentos reenvasados por doses unitárias gerou impacto expressivo:
- 1,27 milhão de comprimidos/ano deixaram de ser reenvasados.
- Redução estimada de 17,016 km de material, equivalente a quase meio milhão de embalagens padrão.
- Economia de 866 kg de resíduos ao ano.
- Redução de 113.693 minutos de trabalho destinados ao reenvaso.
- Economia anual de 36.274€ em materiais e depreciação de máquinas.
Ao extrapolar os resultados para os 172 centros interessados, o estudo projeta:
- 16,67 milhões de comprimidos/ano sem necessidade de reenvaso.
- Economia potencial superior a 451.000€/ano.
- Redução de 2.220 km de material e mais de 24.700 horas de trabalho.
Discussão: sustentabilidade e eficiência combinadas
Os resultados demonstram que a adoção de apresentações unitárias reduz significativamente os resíduos, custos e tempo operacional. Segundo os autores, a estratégia também diminui riscos associados à manipulação e à isoaparência de embalagens, podendo contribuir para a segurança do paciente.
O estudo destaca ainda:
- A implementação foi uniforme entre os 15 hospitais (p = 0,234), mostrando boa adaptabilidade.
- O modelo é escalável, podendo ser aplicado em diferentes contextos e sistemas de saúde.
- A principal limitação está na disponibilidade reduzida de medicamentos em dose unitária – um desafio que envolve indústria e políticas de aquisição.
Conclusão
A substituição de medicamentos reenvasados por apresentações comerciais em dose unitária se mostra uma estratégia eficaz para tornar a Farmácia Hospitalar mais sustentável, eficiente e segura. Além de reduzir resíduos e custos, essa abordagem libera tempo de profissionais, permitindo sua realocação para atividades de maior valor assistencial.
O estudo evidencia que medidas estruturadas de aquisição e automação podem apoiar iniciativas de sustentabilidade e reforça o papel central da Farmácia Hospitalar na transição para modelos mais responsáveis do ponto de vista ambiental.
Acesse o estudo no link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-reduction-unnecessary-repackaging-as-an-articulo-S1130634325001485



