Todo farmacêutico hospitalar conhece esse cenário: estantes repletas de bins, centenas de medicamentos armazenados e uma rotina marcada pela necessidade de localizar, separar e dispensar cada item com rapidez e segurança. Em um ambiente no qual volume, agilidade e precisão precisam caminhar juntos, a automação tem ganhado espaço como estratégia para otimizar processos e aumentar a segurança na farmácia hospitalar.
Um estudo recente publicado na revista Healthcare (MDPI, 2025), conduzido por pesquisadores da LIUC – Università Carlo Cattaneo, trouxe um retrato inédito sobre a viabilidade econômica dessas tecnologias em hospitais europeus. A pesquisa avaliou cinco soluções de automação em farmácias hospitalares de 28 países (os 27 da União Europeia mais o Reino Unido) e chegou a números que merecem a atenção de qualquer gestor ou farmacêutico brasileiro que acompanha a evolução da logística do medicamento.
Cinco tecnologias, um mesmo objetivo: reduzir erro e otimizar recursos
O estudo modelou um hospital padrão de 561 leitos, representativo do porte médio de uma instituição de cuidados agudos na Europa, e avaliou o impacto econômico de cinco tecnologias que atuam em diferentes etapas do ciclo do medicamento:
- Robôs de gestão de estoque, que automatizam o armazenamento, a localização e a retirada de medicamentos na farmácia central, utilizando tecnologias como código de barras ou identificação por radiofrequência (RFID) para garantir maior controle e rastreabilidade dos produtos.
- Sistemas automatizados de unitarização de doses, que realizam o fracionamento, a identificação e a rotulagem individualizada dos medicamentos, favorecendo a rastreabilidade e a segurança na dispensação.
- Armários de dispensação automatizada (ADCs), instalados nas próprias unidades assistenciais, permitindo acesso controlado e rastreável aos medicamentos.
- Sistemas de redução de erros de dose (DERS), integrados às bombas de infusão, que utilizam bibliotecas de medicamentos com limites de dose e parâmetros de infusão predefinidos, alertando ou impedindo programações fora dos limites de segurança.
- Sistemas de rastreabilidade para terapias oncológicas, que cobrem desde a prescrição eletrônica até a verificação gravimétrica no preparo da quimioterapia.
Cada uma dessas tecnologias foi analisada sob a ótica de três indicadores financeiros clássicos: Retorno sobre Investimento (ROI), Valor Presente Líquido (VPL) e Tempo de Retorno (Payback Time), considerando um horizonte de dez anos, entre 2024 e 2034.
O que os números mostram
Os resultados agregados para os 28 países surpreendem pela consistência. O investimento total estimado para implementar as cinco tecnologias em toda a rede hospitalar europeia foi de 3,55 bilhões de euros, com retorno médio em 4,46 anos e economia anual próxima de 1,96 bilhão de euros. O ROI médio ficou em 167%.
Entre as tecnologias avaliadas, o sistema de rastreabilidade oncológica se destacou como o mais vantajoso: menor investimento inicial, retorno em apenas dois anos e ROI que passou de 300% em nível hospitalar. Os robôs de estoque também apresentaram desempenho robusto, com forte impacto na redução de desperdício de medicamentos.
Já os armários de dispensação automatizada, embora tenham gerado a maior economia anual entre todas as tecnologias, exigiram o maior aporte de capital, o que resultou no retorno mais lento entre as cinco soluções analisadas, cerca de sete anos.
O erro de medicação como principal driver econômico
Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito à origem da economia gerada. A redução de erros na administração de medicamentos respondeu por 37,2% do total de economias identificadas, superando ganhos com redução de mão de obra, otimização de estoque e diminuição de desperdício somados em várias das tecnologias analisadas.
Esse dado reforça algo que a prática clínica já sinaliza há tempo: o erro de medicação não é apenas uma questão de segurança do paciente, mas também um dos maiores custos ocultos da assistência hospitalar, medido em dias adicionais de internação, uso de recursos clínicos e impacto sobre desfechos.
O que isso significa para a realidade brasileira
Embora o estudo tenha como recorte os sistemas de saúde europeus, com suas particularidades de financiamento, salários e estrutura hospitalar, os princípios que sustentam a análise são universais. A lógica de que investir em automação reduz custos indiretos ligados ao erro de medicação, à perda de estoque e ao tempo de equipe alocado em tarefas repetitivas é plenamente aplicável ao contexto de hospitais brasileiros, públicos e privados.
Para o farmacêutico hospitalar brasileiro, o estudo funciona como um convite à reflexão sobre como estruturar, dentro da própria instituição, indicadores que permitam mensurar o impacto real da automação, ainda que de forma simplificada. Não é necessário um modelo de 561 leitos ou dados de 28 países para começar: acompanhar taxas de erro, tempo de equipe dedicado a atividades logísticas e índices de perda por vencimento já oferece uma base sólida para justificar investimentos junto à gestão hospitalar.
O caminho da evidência para a decisão
O estudo também chama atenção para um ponto estrutural: a adoção de tecnologias de automação na farmácia hospitalar ainda é baixa, mesmo diante de evidências favoráveis, principalmente pela ausência de dados estruturados que sustentem a decisão de investimento. É exatamente esse tipo de evidência, organizada e comparável, que ajuda a transformar a automação de uma aspiração tecnológica em uma decisão estratégica bem fundamentada.
Para quem atua na linha de frente da farmácia clínica e hospitalar, fica a mensagem central do estudo: os ganhos vão muito além da eficiência operacional. Automação bem planejada significa menos tempo perdido em tarefas repetitivas, menos medicamento descartado por vencimento e, sobretudo, mais segurança para quem está do outro lado da prescrição, o paciente.
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