As reações adversas a medicamentos (RAM) em pacientes idosos internados em unidades de terapia intensiva (UTI) representam um desafio crescente à segurança do paciente. A polifarmácia, comum nesse perfil populacional, aliada a alterações farmacocinéticas próprias da idade e à gravidade clínica, aumenta o risco de eventos adversos relacionados ao uso de medicamentos.Um estudo recente publicado na revista Farmacia Hospitalaria investigou se os escores clínicos utilizados para prever gravidade e mortalidade – como APACHE II e SAPS 3 – também seriam úteis na previsão de RAM em pacientes geriátricos críticos. O resultado? Esses escores podem não ser suficientes para orientar ações de farmacovigilância.
O que o estudo avaliou?
A pesquisa, conduzida na UTI de um hospital universitário brasileiro, acompanhou 41 pacientes com idade igual ou superior a 60 anos. Os pesquisadores aplicaram escores como APACHE II, SAPS 3, GerontoNet e BADRI, além de monitorarem diariamente sinais de RAM com base em ferramentas de detecção (triggers) e avaliação de causalidade por algoritmos reconhecidos (Naranjo, OMS-UMC, LCAT).
Principais resultados do estudo
- Foram identificados 1.295 fatores desencadeantes e 15 RAM potenciais em 11 pacientes.
- A maioria das RAM foi classificada como possível ou provável.
- Não houve correlação estatística entre RAM e escores de gravidade (SOFA), prognóstico (APACHE II e SAPS 3) ou desfecho clínico (óbito).
- O escore BADRI se mostrou mais eficaz, com associação significativa entre escores elevados e ocorrência de RAM (p = 0,001).
- Pacientes com IMC ≥ 28 apresentaram risco 5,42 vezes maior de desenvolver RAM.
O que esses achados indicam?
A ausência de associação entre os escores tradicionais de gravidade e a ocorrência de RAM reforça que esses instrumentos não devem ser usados isoladamente para guiar estratégias de farmacovigilância em UTIs. A detecção de RAM depende de abordagens mais específicas e direcionadas ao risco medicamentoso, como os escores BADRI e GerontoNet, que consideram variáveis clínicas e farmacológicas de forma integrada.Além disso, o achado de que pacientes com sobrepeso ou obesidade têm maior risco de RAM aponta para a necessidade de atenção especial à farmacocinética alterada nesse grupo, algo frequentemente negligenciado na prática clínica.
Por que este estudo importa?
Este é um dos primeiros estudos a avaliar prospectivamente a correlação entre escores clínicos e RAM em idosos críticos. Ele contribui para reforçar a importância de programas de farmacovigilância ativa nas UTIs, com a utilização de ferramentas específicas de risco medicamentoso.
Embora o número de participantes tenha sido pequeno, os dados levantam questões relevantes para farmacêuticos clínicos, intensivistas e gestores de saúde sobre como melhorar a detecção precoce de eventos adversos e otimizar os cuidados farmacoterapêuticos em populações vulneráveis.
Próximos passos para a prática clínica
- Incorporação de escores de risco específicos (como BADRI) nas rotinas de farmacovigilância hospitalar.
- Treinamento das equipes multiprofissionais para identificar sinais precoces de RAM com ferramentas baseadas em fatores desencadeantes.
- Atenção ao IMC como possível fator de risco subestimado para RAM.
- Expansão de estudos multicêntricos com amostras maiores e inclusão de variáveis farmacogenéticas e comorbidades.
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Acesse o artigo do estudo neste link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-prediccion-reacciones-adversas-medicamentos-articulo-S1130634324000941



