A hipertermia maligna (HM) é uma emergência farmacológica rara, mas potencialmente fatal, associada ao uso de anestésicos voláteis e suxametônio. Mesmo com sua baixa incidência, a letalidade é alta se não houver tratamento imediato com dantroleno. É por isso que a European Malignant Hyperthermia Group (EMHG) publicou, em 2020, uma diretriz específica reforçando a obrigatoriedade da disponibilidade do medicamento onde quer que se pratique o ato anestésico.
A diretriz da EMHG, publicada no British Journal of Anaesthesia, é clara: todo hospital, centro cirúrgico ou unidade de saúde que utilize agentes anestésicos desencadeantes deve manter estoque imediato de dantroleno.
A quantidade mínima recomendada é:
- 36 frascos de dantroleno prontos para uso imediato
- +24 frascos acessíveis em até 1 hora, totalizando até 60 frascos em locais de difícil reposição
A recomendação se baseia em um regime de dosagem de até 10 mg/kg, considerando um paciente adulto com 100 kg. A aplicação rápida e em dose eficaz é o fator mais determinante na sobrevivência.
Por que isso é importante?
Historicamente, a mortalidade por HM ultrapassava 70%. Com a introdução do dantroleno e seu uso precoce, a taxa caiu para menos de 5%. No entanto, essa eficácia depende diretamente do tempo de resposta — e cada minuto conta. Em um cenário real de HM, atrasos superiores a 10 minutos podem levar à falência de múltiplos órgãos, rabdomiólise, arritmias graves e morte. Por isso, a presença física do medicamento no local do evento anestésico é mandatória.
Essa exigência está em consonância com a Resolução CFM nº 2.174/2017, que define como responsabilidade do anestesista assegurar a existência de condições adequadas para a realização segura do ato anestésico, incluindo estrutura, equipamentos, monitorização e medicamentos essenciais à reversão de intercorrências graves. A ausência do dantroleno, nesses casos, representa uma grave falha institucional de preparo.
Como estruturar a disponibilidade do dantroleno?
A diretriz recomenda que o estoque esteja:
- Acondicionado em kits de emergência com água para reconstituição
- Acompanhado de instruções visuais de preparo e administração
- Posicionado estrategicamente em locais com anestesia geral (salas cirúrgicas, centros obstétricos, unidades de emergência com bloqueios neuromusculares)
Além disso, a equipe multiprofissional deve ser treinada periodicamente para reconhecer sinais precoces da HM e administrar o protocolo em tempo hábil.
Implicações para a prática hospitalar
Para gestores de saúde, farmacêuticos e anestesiologistas, a diretriz representa não apenas uma orientação clínica, mas um compromisso ético com a segurança do paciente. A ausência de dantroleno em um caso confirmado de HM pode configurar negligência institucional.
Hospitais que utilizam suxametônio, especialmente em emergências intubatórias, também devem ser incluídos nas rotinas de verificação de estoque.
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Acesse o artigo original da EMHG: https://www.bjanaesthesia.org/article/S0007-0912(20)30349-4/fulltext
Consulte também a Resolução CFM nº 2.174/2017 na íntegra: https://farmaciaupdate.com.br/wp-content/uploads/2025/08/RESOLUCAO-2_174-de-14-de-dezembro-de-2017-Diario-Oficial-da-Uniao-Imprensa-Nacional.pdf



