A adoção do teletrabalho em serviços de saúde ganhou força durante a pandemia de COVID-19, levando muitos hospitais a reavaliar seus modelos operacionais. Entre as áreas impactadas, a farmácia clínica se destacou por incorporar fluxos remotos em atividades como reconciliação medicamentosa, teleconsultas e, mais recentemente, na gestão de renovações de prescrições. Um estudo publicado no American Journal of Health-System Pharmacy investigou como essa mudança afetou a produtividade de farmacêuticos responsáveis por um programa de gerenciamento de renovações.
O que o estudo avaliou
A pesquisa acompanhou sete farmacêuticos entre abril e junho de 2023, período em que cada profissional alternou dias de trabalho remoto e presencial. O objetivo foi comparar o volume de solicitações de renovação processadas diariamente em cada cenário. Os dados foram obtidos diretamente do prontuário eletrônico, permitindo mensurar tanto a produtividade quanto o tempo dedicado a outras atividades.
Principais resultados
Durante o período analisado, 59.090 solicitações foram processadas. Os achados mostraram:
- Média de 89,2 solicitações/dia trabalhadas remotamente, contra 75,5 por dia no ambiente presencial.
- Isso representa um aumento de 18% na produtividade (P < 0,0004).
- As horas totais de trabalho foram semelhantes, mas o teletrabalho reduziu o tempo gasto com outras tarefas paralelas.
Esses resultados sugerem que, para atividades com alta demanda de foco e processamento técnico, o ambiente remoto pode favorecer a concentração e eficiência.
Interpretação dos achados
O estudo aponta que a estrutura remota pode reduzir interrupções comuns no ambiente hospitalar, contribuindo para maior ritmo de processamento de solicitações. Além disso, a possibilidade de manter o mesmo número de horas trabalhadas indica que a diferença de desempenho está associada principalmente ao ambiente, e não à carga horária.
Embora o estudo não tenha avaliado diretamente fatores como satisfação profissional ou ergonomia, os autores destacam a necessidade de examinar esses aspectos, uma vez que eles podem influenciar a sustentabilidade do modelo a longo prazo.
Implicações para a prática farmacêutica
Os resultados levantam pontos de reflexão para gestores de farmácia e instituições que buscam otimizar operações:
- O teletrabalho pode aumentar a capacidade operacional sem alterar o quadro de profissionais.
- O modelo pode ampliar a flexibilidade da força de trabalho, apoiando estratégias de contratação e retenção.
- Atividades de natureza administrativa ou de validação podem se beneficiar mais deste formato que tarefas que exigem presença física.
No entanto, o estudo destaca a importância de pesquisas adicionais para avaliar o impacto em aspectos como segurança, qualidade do atendimento e integração entre equipes.
Conclusão
O estudo sugere que o teletrabalho tem potencial para melhorar a produtividade em programas de gerenciamento de renovações farmacêuticas, permitindo processar mais solicitações com a mesma dedicação horária. Embora seus resultados não sejam generalizáveis para todas as instituições, eles adicionam evidências relevantes ao debate sobre modelos híbridos na farmácia hospitalar. Pesquisas futuras deverão explorar também a experiência dos profissionais e os fatores que influenciam a eficiência em diferentes contextos.
Acesse o artigo do American Journal of Health-System Pharmacy: https://academic.oup.com/ajhp/advance-article-abstract/doi/10.1093/ajhp/zxaf285/8293141?redirectedFrom=fulltext



