O manejo de medicamentos de uso contínuo (MUC) em pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos representa um dos principais desafios na prática hospitalar. A decisão de manter, suspender ou reintroduzir medicamentos no período perioperatório envolve riscos clínicos relevantes, incluindo eventos hemorrágicos, complicações trombóticas e descompensação de doenças de base.
Um artigo publicado na revista Farmacia Hospitalaria reuniu recomendações baseadas em evidência e consenso de especialistas para orientar a condução da farmacoterapia nesse contexto, com foco na segurança do paciente cirúrgico
A importância do manejo adequado no período perioperatório
O período perioperatório compreende as fases: pré-operatória, intraoperatória e pós-operatória. Nesse intervalo, a gestão inadequada de medicamentos pode comprometer tanto o procedimento quanto a recuperação do paciente.
Estima-se que pelo menos 50% dos pacientes cirúrgicos utilizam medicamentos de uso contínuo, o que aumenta a complexidade do cuidado. Além disso, falhas no manejo desses medicamentos podem levar até mesmo ao cancelamento de cirurgias, especialmente quando envolvem fármacos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários, tais como rivaroxabana e clopidogrel, respectivamente.
O desafio no manejo dos MUC em pacientes cirúrgicos está na avaliação individualizada que integra quadro clínico, risco cirúrgico, tipo de procedimento e avaliação anestésica. A análise dos MUC é essencial, pois sua manutenção pode aumentar riscos perioperatórios, enquanto a suspensão inadequada pode descompensar doenças de base, exigindo decisões baseadas em informações clínicas completas e bem registradas.
Conciliação medicamentosa como etapa fundamental
A conciliação medicamentosa é descrita no artigo como um processo essencial para garantir a segurança do paciente. Esse processo envolve:
- identificação completa dos medicamentos em uso
- comparação com a prescrição hospitalar
- análise de discrepâncias intencionais e não intencionais
- resolução de possíveis inconsistências
Além dos medicamentos prescritos, é necessário considerar também produtos de venda livre, suplementos alimentares e fitoterápicos, uso de extratos vegetais que podem interferir no procedimento cirúrgico.
Pacientes polimedicados apresentam maior risco de complicações perioperatórias, reforçando a necessidade de avaliação criteriosa e individualizada.
Fatores que influenciam a decisão terapêutica
A decisão de manter ou suspender um medicamento deve considerar múltiplos fatores, incluindo:
- risco cirúrgico (baixo, moderado ou alto)
- tipo de anestesia
- características clínicas do paciente
- comorbidades e grau de fragilidade
- propriedades farmacológicas do medicamento
O artigo reforça que não existe uma abordagem única aplicável a todos os casos. A individualização da conduta é essencial para equilibrar riscos e benefícios.
Principais recomendações identificadas
A revisão da literatura reuniu evidências de guias clínicas, documentos de consenso e bases de dados especializadas, resultando em recomendações organizadas por grupos terapêuticos.
Entre os principais achados:
- A maioria dos medicamentos pode ser mantida até o dia da cirurgia
- A reintrodução geralmente ocorre quando a via oral está disponível
- Medicamentos para doenças imunomediadas devem, em geral, ser suspensos antes do procedimento
- Fitoterápicos e suplementos naturais devem ser interrompidos previamente
No caso de terapias imunossupressoras, recomenda-se suspender o medicamento com base em sua meia-vida, variando conforme o risco de infecção associado ao procedimento cirúrgico.
Anticoagulantes e antiagregantes: um dos maiores desafios
O manejo de medicamentos que interferem na coagulação é um dos pontos mais complexos no perioperatório. A decisão deve equilibrar:
- risco de sangramento
- risco trombótico
- características do procedimento cirúrgico
- perfil clínico do paciente
Nesse contexto, a avaliação interdisciplinar é essencial, envolvendo especialistas como cardiologistas, hematologistas, anestesistas, cirurgiões e farmacêutico clínico.
O impacto de fitoterápicos e suplementos
O artigo também chama atenção para o uso de plantas medicinais e suplementos, frequentemente subestimados na prática clínica. Algumas substâncias podem:
- interferir na coagulação
- interagir com anestésicos
- aumentar o risco de complicações
Por esse motivo, recomenda-se suspender esses produtos com antecedência, geralmente entre uma a duas semanas antes da cirurgia.
O papel da equipe multiprofissional
O manejo perioperatório da medicação crônica exige atuação integrada entre diferentes profissionais de saúde. O artigo destaca o papel do farmacêutico na:
- identificação de problemas relacionados a medicamentos
- conciliação medicamentosa
- validação de prescrições
- orientação à equipe e ao paciente
Essa atuação contribui para a prevenção de eventos adversos e para a melhoria dos desfechos clínicos.
Limitações e necessidade de mais evidência
Apesar da consolidação de recomendações, o artigo ressalta que ainda há escassez de ensaios clínicos robustos em muitas áreas. Parte das orientações baseia-se em consenso de especialistas ou extrapolação de dados, o que pode gerar variações entre diferentes diretrizes.
Isso reforça a necessidade de estudos futuros que fortaleçam a base científica para o manejo perioperatório de medicamentos.
Conclusão
O manejo dos MUCs no período perioperatório é um processo complexo que exige avaliação individualizada e integração multiprofissional. A condução correta dessa etapa é fundamental para garantir a segurança do paciente e evitar complicações relacionadas à cirurgia.
As recomendações apresentadas no artigo fornecem uma base estruturada para apoiar a tomada de decisão clínica, contribuindo para uma abordagem mais segura e consistente no cuidado ao paciente cirúrgico.
Acesse o artigo através do link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-guia-el-manejo-perioperatorio-medicacion-articulo-S1130634325001072



