A vancomicina é um antibiótico amplamente utilizado no tratamento de infecções por bactérias Gram-positivas resistentes, como o Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA). No entanto, na prática pediátrica, surgem dúvidas importantes: qual é a melhor forma de administrar esse fármaco — infusão contínua ou intermitente? E qual dessas estratégias oferece maior segurança para os rins, especialmente em crianças internadas em unidades de terapia intensiva?
Um estudo publicado em 2025 na revista Journal of Hospital Pharmacy and Health Services (Andrade et al.) analisou essa questão em profundidade. Os dados foram coletados em um hospital pediátrico de alta complexidade no Paraná, Brasil, e incluíram 71 pacientes com infecções graves tratadas com vancomicina, inicialmente por infusão intermitente e, posteriormente, por infusão contínua.
O que o estudo avaliou
O estudo comparou:
- Níveis séricos da vancomicina nas duas formas de infusão
- Taxas de cura clínica e microbiológica
- Ocorrência de lesão renal aguda (AKI)
- Eventos adversos relacionados à administração
Principais resultados
1. Níveis terapêuticos mais consistentes com infusão contínua
A mediana dos níveis séricos de vancomicina foi significativamente maior durante a infusão contínua (17,7 mg/L) do que na intermitente (9,4 mg/L), aumentando a chance de alcançar a concentração terapêutica ideal.
2. Menor risco de lesão renal
A taxa de lesão renal aguda (AKI) foi menor com infusão contínua (56,3%) em comparação à intermitente (64,8%). Além disso, o risco de desenvolver AKI foi 4,86 vezes maior com a infusão intermitente.
3. Menor necessidade de monitoramento laboratorial
O número de coletas de níveis séricos foi 2,6 vezes menor na infusão contínua, o que pode aliviar a carga laboratorial e otimizar recursos, especialmente em hospitais com limitações operacionais.
4. Boa taxa de cura
Entre os tratamentos guiados por antibiograma, 76,3% dos pacientes apresentaram cura clínica e microbiológica. Nos tratamentos empíricos, a taxa de cura clínica foi de 62,2%.
E os efeitos adversos?
Apesar das vantagens, a infusão contínua apresentou mais eventos adversos operacionais, como erros de prescrição e coleta incorreta de amostras. Ainda assim, a maioria desses eventos foi considerada manejável e sem consequências graves. O estudo destaca a importância do envolvimento da farmácia clínica na implementação e monitoramento da terapia para evitar erros de processo.
O papel do farmacêutico hospitalar
A transição para a infusão contínua exige:
- Protocolos institucionais padronizados
- Capacitação da equipe multiprofissional
- Monitoramento ativo pela farmácia clínica
- Atenção à compatibilidade de medicamentos no mesmo acesso venoso
Além disso, o farmacêutico pode contribuir ativamente para a avaliação do risco de lesão renal, considerando variáveis como depuração de creatinina, idade, comorbidades e uso concomitante de outros fármacos nefrotóxicos.
Conclusão
O estudo reforça que a infusão contínua de vancomicina é uma alternativa eficaz e segura na pediatria, especialmente para crianças com infecções graves e necessidade de monitoramento preciso. Embora ainda existam desafios operacionais, a infusão contínua tende a proporcionar melhor controle da dose, maior estabilidade dos níveis plasmáticos e menor risco de toxicidade renal.
A decisão entre infusão contínua e intermitente deve ser individualizada, mas os dados apresentados apontam para a necessidade de considerar a estratégia contínua como padrão em determinadas situações clínicas — sempre com suporte de uma farmácia clínica atuante e protocolos bem estabelecidos.
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Acesse o estudo completo através do link: https://jhphs.org/sbrafh/article/view/1302



