A alta hospitalar representa um dos momentos mais críticos da transição do cuidado. Após dias ou semanas de internação, o paciente deixa o hospital com novos medicamentos, mudanças terapêuticas e orientações que precisarão ser incorporadas rapidamente à rotina. Mas existe uma pergunta frequentemente negligenciada: o paciente realmente conseguirá acessar os medicamentos prescritos após sair do hospital?
Um estudo publicado no Journal of Hospital Pharmacy and Health Services avaliou justamente essa questão ao analisar prescrições de alta de pacientes internados em um hospital universitário de alta complexidade no Brasil. O objetivo foi entender se os medicamentos prescritos estavam efetivamente disponíveis na rede pública e qual foi o papel do farmacêutico no processo de orientação da alta hospitalar.
Os resultados levantam reflexões importantes para a farmácia hospitalar, especialmente sobre continuidade do cuidado, adesão terapêutica e segurança do paciente.
O que o estudo avaliou?
A pesquisa analisou 1.068 prescrições eletrônicas de alta hospitalar emitidas em 2023, correspondendo a pacientes internados na unidade de emergência de um hospital terciário de referência do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao todo, foram avaliados 4.229 medicamentos prescritos.
Os autores compararam os medicamentos prescritos com Relação de Medicamentos Essenciais do Município (REMUME) e critérios de acesso do SUS, considerando fatores como:
- presença do medicamento nas listas municipais;
- restrições clínicas incompatíveis com dispensação;
- necessidade de formulários específicos (como LME para medicamentos especializados);
- prescrição por nome comercial;
- possibilidade de dispensação temporária pelo hospital-dia.
Além disso, o estudo analisou se houve orientação farmacêutica documentada na alta hospitalar, especialmente em pacientes com polifarmácia.
O dado que mais chama atenção: quase metade dos medicamentos não era acessível
Entre os mais de 4 mil medicamentos analisados, 45,45% foram classificados como inacessíveis ao paciente dentro do SUS. Ou seja, quase metade dos medicamentos prescritos na alta possuía algum tipo de barreira para obtenção na rede pública.
As principais razões para a falta de acesso foram:
- ausência do medicamento nas listas municipais (81,22%);
- restrições incompatíveis com critérios de dispensação (9,52%);
- ausência do formulário necessário para medicamentos especializados (7,96%);
- prescrição por nome comercial, dificultando a dispensação no SUS.
Na prática, isso significa que muitos pacientes deixam o hospital com prescrições potencialmente difíceis, ou até impossíveis, de serem executadas imediatamente.
O problema ganha relevância porque a interrupção precoce da farmacoterapia pode comprometer diretamente os resultados clínicos, aumentar risco de complicações e favorecer reinternações.
O desafio muda conforme o tipo de medicamento
Um ponto interessante do estudo foi observar que a dificuldade de acesso variava conforme o perfil terapêutico.
Entre medicamentos de uso “se necessário” (PRN) ou para uso pontual, a inacessibilidade foi ainda maior. Segundo os autores, isso pode indicar uma lógica implícita no processo de prescrição: a expectativa de que medicamentos de curta duração sejam adquiridos diretamente pelo paciente, especialmente quando o custo é considerado menor.
Já entre medicamentos do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF) – geralmente relacionados a tratamentos mais complexos e contínuos – a principal barreira foi a ausência da documentação necessária (LME).
Ou seja: em muitos casos, o medicamento até existia no SUS, mas o fluxo burocrático não estava completo para garantir acesso imediato.
O hospital-dia resolveu o problema?
O estudo também avaliou o papel do chamado hospital-dia, utilizado como recurso de transição para fornecer medicamentos temporariamente enquanto o paciente acessa a rede pública.
Entretanto, os números mostram impacto limitado: apenas 2,9% dos medicamentos inacessíveis foram supridos por essa estratégia.
Segundo os autores, embora o hospital-dia seja uma alternativa importante para situações específicas, como altas em finais de semana ou continuidade imediata de terapias, ele não substitui a necessidade de uma política estruturada de acesso.
Um dado preocupante: o farmacêutico participa pouco das altas
Talvez um dos achados mais relevantes do estudo seja o baixo registro de orientações farmacêuticas.
Das 1.068 altas avaliadas, apenas 12 (1,1%) apresentaram documentação de orientação farmacêutica.
Esse dado chama ainda mais atenção quando analisado junto a outro resultado do estudo: 23% dos pacientes utilizavam quatro ou mais medicamentos, critério adotado pelos autores como indicador de necessidade de acompanhamento farmacêutico na transição do cuidado.
Isso sugere uma lacuna importante entre necessidade assistencial e prática institucional.
A alta hospitalar é um momento particularmente vulnerável para erros relacionados a medicamentos, duplicidades terapêuticas, descontinuidade de tratamento e baixa adesão. Nesse cenário, o farmacêutico pode exercer papel decisivo ao:
- revisar prescrições;
- identificar medicamentos indisponíveis;
- sugerir alternativas terapêuticas viáveis;
- orientar pacientes e familiares;
- explicar fluxos de acesso no SUS;
- reduzir risco de interrupção do tratamento.
O acesso não depende apenas do medicamento existir
Outro ponto interessante levantado pelo artigo é que acesso não significa apenas gratuidade ou presença em listas oficiais.
Segundo os autores, diversos fatores podem interferir na obtenção do tratamento, incluindo:
- disponibilidade física do medicamento;
- organização da assistência farmacêutica local;
- critérios administrativos;
- deslocamento geográfico;
- conhecimento do paciente sobre onde buscar o medicamento;
- capacidade do sistema em orientar corretamente a continuidade do cuidado.
Inclusive, o estudo encontrou grande variação entre municípios da mesma região, sem relação clara com tamanho populacional ou PIB per capita. Isso sugere que a organização dos serviços farmacêuticos locais pode influenciar mais o acesso do que fatores econômicos isolados.
O que esse estudo nos faz refletir?
Embora o estudo tenha sido conduzido dentro de uma realidade específica do SUS, ele levanta uma discussão universal: prescrever é suficiente, ou precisamos garantir que o paciente consiga executar o tratamento?
Na prática hospitalar, a efetividade terapêutica não depende apenas da decisão clínica, mas da capacidade do sistema de garantir a continuidade do cuidado após a alta.
Isso inclui pensar na acessibilidade da prescrição desde o momento da escolha terapêutica.
Em muitos casos, pequenas adequações – como optar por medicamentos padronizados, evitar nomes comerciais ou estruturar corretamente a documentação – podem reduzir barreiras importantes.
Mais do que um processo administrativo, a alta hospitalar se mostra um momento estratégico de segurança do paciente.
Conclusão
O estudo evidencia que quase metade dos medicamentos prescritos na alta hospitalar apresentou algum tipo de barreira de acesso no SUS, destacando fragilidades importantes na continuidade da farmacoterapia.
Além disso, os resultados reforçam uma oportunidade ainda pouco explorada: ampliar a atuação clínica do farmacêutico no momento da alta hospitalar, especialmente em pacientes com polifarmácia e maior complexidade terapêutica.
Garantir acesso ao medicamento talvez seja tão importante quanto escolher corretamente a terapia.
Acesse o estudo através do link: https://jhphs.org/sbrafh/article/view/1427


