A robotização chegou às farmácias hospitalares e veio para ficar. Em serviços de oncologia, unidades de manipulação e centros de preparo de medicamentos injetáveis de alta complexidade, os robôs de preparação já são uma realidade em hospitais de referência ao redor do mundo, e sua presença cresce também no Brasil. Os argumentos a favor são sólidos: mais precisão, melhor rastreabilidade do processo, redução da exposição dos profissionais a substâncias potencialmente tóxicas e ganhos consistentes em segurança do paciente.
Mas há uma dimensão dessa transformação que costuma ficar em segundo plano nas discussões sobre automação: o que acontece com as pessoas que trabalham ao lado desses robôs? Como técnicos de farmácia, enfermeiros e farmacêuticos percebem, aceitam e se adaptam a essa nova forma de trabalhar? Essas perguntas importam, e um protocolo de estudo publicado recentemente na Farmacia Hospitalaria propõe, pela primeira vez, desenvolver e validar um instrumento para respondê-las de forma rigorosa.
Medicamentos perigosos e o papel da automação
Antes de entrar no estudo em si, vale entender por que a preparação de medicamentos perigosos ocupa um lugar tão especial nessa discussão.
Medicamentos perigosos são aqueles que apresentam risco significativo de dano ao profissional que os manipula, mesmo em quantidades pequenas. Os quimioterápicos são o exemplo mais conhecido, mas a categoria é mais ampla: inclui agentes teratogênicos, mutagênicos, imunossupressores e outros que exigem cuidados específicos de manipulação, proteção e descarte. No ambiente hospitalar, a preparação desses medicamentos representa uma das atividades de maior risco ocupacional dentro da farmácia.
A automação por robôs nesse contexto não é apenas uma questão de eficiência. É, antes de tudo, uma estratégia de segurança. O Instituto para Uso Seguro de Medicamentos (ISMP) reconhece a robotização da preparação de medicamentos perigosos como uma das medidas mais eficazes disponíveis para reduzir o risco ocupacional e melhorar a qualidade do produto preparado. Robôs não se cansam, não se distraem e não se expõem a agentes tóxicos da mesma forma que os humanos.
Mas a introdução de um robô numa unidade de preparo não é um evento isolado. Ela transforma processos, redistribui tarefas, cria novos perfis de atuação e gera demandas de capacitação que, se não forem bem gerenciadas, podem comprometer exatamente os benefícios que motivaram a implantação.
A lacuna que o estudo quer preencher
Existem modelos teóricos consolidados para avaliar a aceitação de tecnologias por usuários. O mais conhecido é o Technology Acceptance Model (TAM), proposto nos anos 1980 e amplamente utilizado desde então em diferentes contextos, incluindo algumas experiências em saúde. Versões mais recentes, como o Extended TAM e o Human-Robot Collaboration Acceptance Model (HRCAM), refinaram essa estrutura para contextos mais específicos, inclusive o de interação com robôs em ambientes industriais.
O problema é que nenhum desses modelos foi desenvolvido pensando nas particularidades da farmácia hospitalar. A preparação de medicamentos perigosos tem características que não aparecem em outros contextos de automação: os riscos envolvidos são de outra magnitude, as exigências regulatórias são muito mais rígidas, a percepção de risco do profissional é diferente e as necessidades de treinamento são mais específicas. Adaptar um questionário genérico para esse contexto, sem um processo de validação adequado, compromete a confiabilidade dos resultados.
Foi exatamente essa lacuna que motivou o estudo. Os autores, farmacêuticos hospitalares de cinco hospitais espanhóis com experiência direta no uso de robôs para preparação de medicamentos perigosos, propõem desenvolver do zero um questionário validado, construído especificamente para esse contexto.
Como o questionário será desenvolvido e validado
O processo descrito no protocolo é criterioso e merece ser explicado, porque ele ilustra bem como se constrói um instrumento de medida confiável na área da saúde.
A primeira etapa é o desenvolvimento do questionário por meio da técnica Delphi. Trata-se de um método de construção de consenso entre especialistas que funciona por rodadas sucessivas de consulta: os participantes avaliam individualmente cada item proposto, os resultados são compilados e devolvidos ao grupo, e o processo se repete até que se alcance um nível de concordância predefinido. No estudo, um comitê de oito farmacêuticos hospitalares com experiência mínima de um ano no uso de robôs para medicamentos perigosos conduzirá esse processo. Um item só será mantido no questionário se ao menos 80% dos especialistas concordarem com sua pertinência.
Depois de desenvolvido, o questionário passa por um processo de validação em três etapas. A validação inicial avalia se o instrumento é claro, coerente e compreensível para quem vai respondê-lo, e se os itens selecionados realmente representam os aspectos mais relevantes do que se quer medir. Um estudo piloto com uma amostra mais ampla de usuários identifica possíveis problemas antes da aplicação em larga escala. E a validação final testa se o questionário mede o que diz medir, por meio de análises estatísticas que incluem correlação com outra escala já validada (a escala ATI, que avalia afinidade com tecnologias) e o cálculo do alfa de Cronbach, indicador clássico de consistência interna de instrumentos de medida.
O questionário finalizado será difundido para todos os usuários de robôs de preparação de medicamentos perigosos em hospitais espanhóis, por meio da Sociedade Espanhola de Farmácia Hospitalar.
Por que o farmacêutico deveria se importar com isso
Pode parecer que um estudo sobre validação de questionário é algo distante da prática clínica cotidiana. Mas as implicações práticas desse trabalho são mais próximas do que parecem.
Em qualquer serviço de farmácia que esteja considerando implementar, ou que já tenha implementado, um sistema robótico para preparo de medicamentos perigosos, as perguntas que o questionário busca responder são exatamente aquelas que definem o sucesso ou o fracasso da implantação. Os profissionais se sentem preparados para operar essa tecnologia? Confiam nos resultados que ela produz? Quais são as principais resistências? Onde o treinamento precisa ser reforçado? O fluxo de trabalho foi adequado à nova realidade?
Sem um instrumento confiável para responder a essas perguntas de forma estruturada, as respostas ficam na informalidade das percepções individuais. Com um questionário validado, elas se tornam dados que podem orientar decisões de gestão, programas de capacitação e ajustes de processo.
Para o farmacêutico em formação, esse estudo também toca num ponto importante: a automação não elimina o papel do profissional. Ela o transforma. Trabalhar com robôs exige um repertório diferente, que inclui compreensão do processo automatizado, capacidade de identificar falhas e desvios, e habilidade para gerir a interface entre a tecnologia e o cuidado. Quanto mais cedo esse entendimento for incorporado à formação, mais preparado o profissional estará para atuar em ambientes que, cada vez mais, vão incluir esse tipo de tecnologia.
O que esperar do estudo
O protocolo está em desenvolvimento. Os resultados, quando disponíveis, entregarão ao campo um instrumento inédito: o primeiro questionário validado especificamente para avaliar a interação entre profissionais e robôs na preparação de medicamentos perigosos em contexto hospitalar.
Mais do que um questionário, o estudo pode ajudar a construir uma linguagem comum para discutir os desafios humanos da automação em farmácia hospitalar. E, num momento em que a robotização avança mais rápido do que a produção de evidências sobre seus impactos organizacionais e humanos, ter ferramentas para medir esses impactos de forma rigorosa é um passo que faz toda a diferença.
Acesse o protocolo completo através do link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-protocolo-el-desarrollo-validacion-un-articulo-S1130634326000085


