A presença do farmacêutico clínico na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) já é amplamente reconhecida como parte importante do cuidado multiprofissional. Participação em rounds, prevenção de erros de medicação, ajuste de antimicrobianos, monitorização terapêutica e suporte farmacoterapêutico são apenas algumas das atividades frequentemente associadas a melhores práticas assistenciais.
Mas uma pergunta permanece relevante: o número de pacientes sob responsabilidade de um farmacêutico pode impactar diretamente a mortalidade hospitalar?
Um estudo multicêntrico recente, publicado como preprint no medRxiv, buscou responder justamente essa questão ao avaliar como o gerenciamento abrangente da farmacoterapia (Comprehensive Medication Management – CMM) realizado por farmacêuticos se relaciona com desfechos clínicos em pacientes críticos. Os resultados sugerem que não apenas a presença do farmacêutico importa, mas também a proporção entre farmacêutico e pacientes na UTI.
Vale destacar um ponto importante: por se tratar de um preprint, o estudo ainda não passou por revisão por pares, o que exige interpretação cautelosa dos resultados.
Por que esse tema importa?
Pacientes internados em UTI apresentam alguns dos maiores riscos relacionados a medicamentos dentro do ambiente hospitalar.
Segundo os autores, fatores como:
- polifarmácia;
- rápida alteração da função renal e hepática;
- alta complexidade clínica;
- múltiplas infusões intravenosas;
- necessidade de decisões terapêuticas rápidas;
- maior risco de eventos adversos a medicamentos;
fazem da terapia intensiva um ambiente especialmente vulnerável a erros relacionados à farmacoterapia.
A literatura já mostra que pacientes críticos podem sofrer eventos adversos medicamentosos com frequência significativa e que muitos deles são potencialmente evitáveis.
Nesse contexto, o farmacêutico clínico deixa de ter apenas uma função operacional e passa a atuar diretamente na segurança do paciente e na tomada de decisão clínica.
O que é o Comprehensive Medication Management (CMM)?
O estudo utilizou o conceito de CMM (Gerenciamento Abrangente da Farmacoterapia), definido como um modelo estruturado de cuidado farmacêutico realizado em colaboração com a equipe multiprofissional.
Na prática, o CMM envolve atividades como:
- revisão completa da farmacoterapia;
- identificação de interações medicamentosas;
- prevenção de eventos adversos;
- ajuste de dose;
- otimização de antimicrobianos;
- adequação da sedação e analgesia;
- monitorização da segurança e efetividade do tratamento.
O diferencial do estudo está em tentar quantificar algo que normalmente é percebido apenas na prática clínica: existe um limite seguro de pacientes por farmacêutico?
Como o estudo foi conduzido?
O trabalho acompanhou 28.795 pacientes internados em UTIs adultas de 64 centros, entre agosto de 2023 e agosto de 2024, sendo uma das maiores análises já realizadas sobre esse tema.
Ao todo:
- 213 farmacêuticos clínicos participaram do estudo;
- foram avaliados 15.888 dias de cuidado em UTI;
- a razão mediana entre farmacêutico e pacientes foi de 1:17;
- a mortalidade hospitalar observada foi de 14,7%.
Os pesquisadores analisaram não apenas a presença do farmacêutico, mas também variáveis importantes como:
- gravidade clínica (SOFA score);
- complexidade do regime medicamentoso;
- tipo de UTI;
- equipe assistencial;
- relação enfermeiro-paciente;
- participação do farmacêutico nos rounds multiprofissionais.
Ou seja, o estudo tentou reduzir o risco de conclusões simplistas ajustando múltiplos fatores que poderiam influenciar a mortalidade.
O principal achado: mais pacientes por farmacêutico, maior mortalidade
O dado mais relevante encontrado foi a associação entre maior carga de pacientes por farmacêutico e pior desfecho clínico.
Segundo os autores:
Para cada paciente adicional atribuído ao farmacêutico na UTI, houve aumento de 0,8% nas chances de mortalidade hospitalar.
Embora o percentual pareça pequeno isoladamente, o efeito se torna relevante quando aplicado a unidades inteiras e longos períodos de internação.
A análise sugere que a mortalidade aumentava progressivamente conforme crescia a proporção farmacêutico-paciente.
Em outras palavras: quanto mais sobrecarregado o farmacêutico, menor tende a ser a capacidade de executar um acompanhamento farmacoterapêutico aprofundado.
Um dia sem farmacêutico também fez diferença
Outro achado particularmente interessante foi relacionado à ausência do farmacêutico.
Pacientes que passaram ao menos um dia da internação sem CMM realizado por farmacêutico apresentaram:
17,9% mais chance de mortalidade hospitalar
quando comparados aos pacientes que receberam acompanhamento contínuo.
Esse dado chama atenção porque reforça algo frequentemente discutido na prática hospitalar: a cobertura descontínua – especialmente finais de semana, feriados ou equipes reduzidas – pode gerar lacunas importantes no cuidado farmacoterapêutico.
Os autores destacam que muitos hospitais ainda possuem baixa cobertura de farmacêuticos clínicos em UTI, particularmente fora do horário comercial.
Existe um número ideal de pacientes por farmacêutico?
O estudo sugere um possível ponto de corte.
Segundo a análise, melhores desfechos foram observados quando o farmacêutico era responsável por até 15 pacientes na UTI (≤1:15).
Acima disso, a associação com mortalidade começou a se tornar progressivamente desfavorável.
Os autores estimam que aproximadamente:
42 pacientes precisariam receber CMM diário nessa proporção para prevenir uma morte hospitalar adicional
(number needed to treat – NNT = 42).
Embora o número deva ser interpretado com cautela – já que o estudo é observacional – o achado oferece um argumento quantitativo importante para discussão de dimensionamento de equipes.
O farmacêutico salva vidas?
Essa é uma pergunta forte, e o próprio estudo evita conclusões absolutas.
Os autores são cuidadosos ao reforçar que: associação não significa causalidade.
Ou seja, o estudo encontrou uma associação consistente entre melhor cobertura farmacêutica e menor mortalidade, mas não consegue provar, sozinho, uma relação de causa e efeito.
Ainda assim, os resultados dialogam com evidências anteriores que já demonstraram benefícios da participação do farmacêutico em rounds multiprofissionais, incluindo:
- redução de eventos adversos;
- menor número de erros de medicação;
- maior rapidez na adequação de antimicrobianos;
- melhora na segurança da farmacoterapia.
O que esse estudo nos faz refletir?
Mais do que discutir produtividade, o artigo levanta uma questão estrutural importante para hospitais: é possível oferecer cuidado farmacêutico de alta qualidade quando um único farmacêutico acompanha muitos pacientes críticos simultaneamente?
A complexidade do paciente crítico exige análise constante de exames, ajustes de doses, reavaliação de interações, discussão terapêutica e tomada de decisão rápida.
Na prática, existe um limite operacional para que tudo isso seja feito com profundidade.
O estudo ajuda a transformar uma percepção cotidiana da farmácia clínica em uma discussão baseada em evidências: o dimensionamento da equipe farmacêutica pode não ser apenas uma questão administrativa, mas potencialmente um fator de segurança do paciente.
Conclusão
Este grande estudo multicêntrico sugere que o gerenciamento abrangente da farmacoterapia realizado por farmacêuticos está associado a melhores desfechos em pacientes críticos.
Os dados indicam que menores proporções farmacêutico-paciente e presença contínua do farmacêutico na UTI podem estar relacionadas à redução da mortalidade hospitalar.
Apesar das limitações inerentes a um estudo observacional e do fato de ainda se tratar de um preprint, os resultados fortalecem uma discussão cada vez mais presente na farmácia hospitalar: o farmacêutico clínico não apenas participa do cuidado intensivo, ele pode ser uma peça estratégica para sua segurança e efetividade.
Acesse o artigo completo: https://www.medrxiv.org/content/10.64898/2025.12.31.25342855v1.full?


