A conciliação da medicação é uma etapa essencial no cuidado ao paciente crítico. Transições assistenciais – como admissão na UTI, trocas de unidade e alta hospitalar – representam momentos de maior vulnerabilidade para erros de medicação. Esses erros podem resultar em eventos adversos, prolongar internações ou até comprometer a segurança do paciente.
Um estudo publicado na Farmacia Hospitalaria descreve o desenvolvimento de um aplicativo móvel inédito, criado para apoiar profissionais de saúde na tomada de decisões relacionadas à conciliação farmacoterapêutica em unidades de cuidados intensivos. O projeto foi conduzido entre 2021 e 2024 pelos grupos FarMIC e RedFaster, da Sociedade Espanhola de Farmácia Hospitalária (SEFH).
Por que a conciliação é tão crítica na UTI?
Pacientes em estado crítico apresentam características que ampliam o risco de discrepâncias medicamentosas e reações adversas. De acordo com dados citados no artigo, 62% dos pacientes avaliados apresentaram discrepâncias entre a medicação domiciliar e a prescrita na UTI, e 48% dessas discrepâncias eram erros de conciliação, alguns com potencial moderado a severo de dano.
Além disso:
- Muitos fármacos utilizados na UTI têm alto risco segundo o ISMP, ou estreito índice terapêutico.
- Alterações fisiológicas comuns no paciente crítico – como choque, sedação profunda, uso de vasopressores ou limitação de via oral – exigem ajustes complexos de dose e via de administração.
- A suspensão abrupta de alguns medicamentos pode gerar síndrome de retirada, piora clínica ou descompensações.
Esses fatores reforçam a necessidade de ferramentas estruturadas que auxiliem na decisão sobre manter, suspender ou reintroduzir medicamentos de forma segura.
O desenvolvimento do novo aplicativo móvel
Para atender essa necessidade, os grupos FarMIC e RedFaster criaram o aplicativo Guía de Conciliación en Pacientes Críticos®, disponibilizado gratuitamente para iOS e Android em outubro de 2024.
Processo de construção da ferramenta
O desenvolvimento ocorreu em etapas:
- Seleção dos fármacos relevantes para o contexto do paciente crítico.
- Revisão sistemática da literatura e de guias pré-existentes.
- Elaboração de fichas medicamentosas, contendo recomendações clínicas baseadas em evidências.
- Revisão por pares realizada por 29 farmacêuticos especialistas.
- Desenvolvimento e validação do aplicativo móvel.
Ao final, foram incluídos 568 fármacos, organizados em 192 grupos terapêuticos, com uma estrutura padronizada de análise e recomendação.
O que a ferramenta oferece ao profissional da UTI?
Segundo as imagens e descrições presentes no artigo, a aplicação reúne:
1. Cronograma de conciliação
A ferramenta orienta quando reintroduzir cada medicamento, considerando o risco/benefício:
- No ingresso da UTI
- Após estabilidade hemodinâmica
- Na alta da UTI
2. Informações sobre via de administração
Inclui dados sobre:
- Alternativas para administração enteral e parenteral
- Compatibilidades
- Necessidade de fotoproteção ou materiais específicos
- Equivalência de doses e biodisponibilidade
3. Síndrome de retirada
Indica se a suspensão abrupta pode causar sintomas de abstinência, rebote ou recorrência da doença.
4. Classificação de risco
Apresenta alertas baseados na lista NIOSH, destacando medicamentos potencialmente perigosos e orientações para manipulação segura.
5. Monitorização
Sugere parâmetros clínicos e laboratoriais a serem acompanhados de acordo com cada fármaco.
6. Interações clinicamente relevantes
A aplicação destaca interações específicas com medicamentos usados com frequência na UTI, como: amiodarona, noradrenalina, propofol, fentanil, midazolam, entre outros.
Impactos esperados para a prática clínica
A ferramenta tem potencial para:
- Aumentar a segurança do paciente, reduzindo erros de conciliação.
- Apoiar decisões rápidas e baseadas em evidências, importante em ambientes de pressão alta como a UTI.
- Padronizar condutas entre equipes multidisciplinares.
- Otimizar o trabalho do farmacêutico clínico, que muitas vezes atua com tempo limitado na UCI – o artigo cita média de 2,7 horas diárias dedicadas ao setor.
Apesar da robustez do projeto, o artigo destaca algumas limitações:
- A revisão do conteúdo foi realizada apenas por farmacêuticos, sem validação formal por médicos ou enfermeiros.
- Todo o conteúdo está disponível exclusivamente em espanhol.
Conclusão
A criação da Guía de Conciliación en Pacientes Críticos® representa um avanço significativo no suporte à conciliação medicamentosa em unidades de terapia intensiva. Com recomendações detalhadas e baseadas em evidências, o aplicativo oferece uma ferramenta prática para reduzir eventos adversos, apoiar decisões clínicas e reforçar o papel essencial do farmacêutico dentro da equipe multidisciplinar da UTI.
O estudo destaca que sua implementação pode melhorar a segurança, padronizar processos e favorecer uma abordagem mais estruturada no manejo da farmacoterapia do paciente crítico.
Acesse o artigo no link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-desarrollo-aplicacion-movil-guia-conciliacion-articulo-S1130634325000534



