Por muito tempo, a atuação do farmacêutico na prescrição hospitalar foi discutida principalmente sob a ótica clínica: redução de erros, otimização da farmacoterapia e segurança do paciente. Mas o que muda quando o farmacêutico deixa de entrar depois da prescrição e passa a participar da construção da decisão terapêutica?
E, principalmente: o que o paciente acha disso?
Um estudo publicado no International Journal of Clinical Pharmacy (2026), conduzido por pesquisadores australianos em quatro hospitais públicos da Austrália do Sul, foi atrás dessa resposta. A pesquisa ouviu 200 pacientes internados, sendo 100 que passaram por prescrição farmacêutica colaborativa e 100 que receberam apenas prescrição médica tradicional, para entender como cada grupo vivenciou o processo de decisão sobre seus próprios medicamentos.
O que é prescrição colaborativa, afinal
No modelo estudado, o farmacêutico participa ativamente da construção do plano terapêutico do paciente internado. Ele levanta o histórico medicamentoso na admissão, trabalha em conjunto com o médico assistente para definir a conduta e, a partir de um plano documentado e validado por ambos os profissionais, assume a prescrição de parte da terapia. O diferencial está justamente na colaboração: farmacêutico, médico e paciente participam da construção do plano farmacoterapêutico, que é documentado e acordado pela equipe antes da prescrição.
Esse modelo já existe em países como Austrália, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, embora com variações. Enquanto o Reino Unido caminha para a prescrição farmacêutica independente, a maior parte dos hospitais que adotam o modelo mantém a prescrição colaborativa como padrão, justamente pela natureza multiprofissional do cuidado hospitalar.
Confiança alta, independentemente de quem prescreveu
Um dos achados mais interessantes do estudo é que a confiança no farmacêutico é praticamente universal. Mais de 90% dos pacientes, tanto no grupo de prescrição colaborativa quanto no grupo de prescrição médica, concordaram que confiam no farmacêutico para garantir que recebam os medicamentos corretos durante a internação. Essa confiança não dependeu de o paciente ter, de fato, vivenciado a prescrição farmacêutica: ela já existia como percepção prévia sobre a categoria.
Ao mesmo tempo, mais de 70% dos pacientes concordaram que os medicamentos prescritos por farmacêuticos deveriam ser conferidos por um médico antes da administração. Isso sugere algo relevante para quem pensa em implementar modelos semelhantes: o paciente não está pedindo autonomia plena do farmacêutico, e sim colaboração visível entre os profissionais.
Envolvimento nas decisões: aqui está a diferença
Se a confiança foi parecida entre os dois grupos, o nível de envolvimento percebido nas decisões sobre o próprio tratamento foi radicalmente diferente. Entre os pacientes que passaram pela prescrição colaborativa, 60% relataram se sentir “muito” ou “extremamente” envolvidos nas decisões sobre seus medicamentos. No grupo de prescrição médica tradicional, esse número caiu para 14%.
A diferença também apareceu em outros pontos: pacientes do grupo colaborativo relataram com mais frequência que suas dúvidas sobre os medicamentos foram esclarecidas (89% contra 71%) e que o profissional trabalhou com eles para alinhar o plano terapêutico aos seus próprios objetivos e preferências (82% contra 67%).
O que os pacientes disseram, nas próprias palavras
A parte qualitativa do estudo, baseada em respostas abertas, revelou quatro temas centrais na percepção dos pacientes: acesso facilitado ao farmacêutico, colaboração interprofissional associada à redução de erros, maior consciência sobre os próprios medicamentos e confiança gerada pelo conhecimento técnico demonstrado.
Pacientes descreveram os farmacêuticos como profissionais disponíveis, dispostos a dedicar tempo às suas dúvidas e capazes de explicar informações complexas de forma acessível. Também associaram a colaboração entre farmacêutico e médico a uma sensação concreta de segurança, também associaram a colaboração entre farmacêutico e médico a maior segurança e à percepção de menor risco de erros.
Por que isso importa para a farmácia hospitalar brasileira
Para a farmácia hospitalar brasileira, o estudo reforça uma discussão que vai além da prescrição farmacêutica: em que momento o farmacêutico entra na decisão terapêutica?” O paciente ganha quando o farmacêutico participa da decisão antes que ela precise virar uma intervenção farmacêutica.
O que este estudo traz de mais valioso não é apenas a evidência de que os pacientes aceitam bem a participação do farmacêutico nas decisões prescritivas, mas o detalhe de como essa aceitação se manifesta: os pacientes não querem que o farmacêutico substitua o médico, querem que os dois trabalhem juntos, de forma visível, e que essa colaboração seja comunicada a eles de maneira clara. Para o farmacêutico hospitalar brasileiro, é uma evidência a mais de que investir em comunicação e em processos formais de discussão terapêutica junto ao paciente não é um detalhe simbólico, é parte do que constroi confiança e segurança percebida no cuidado. Talvez o principal ensinamento do estudo seja que o valor do farmacêutico não começa quando ele identifica um problema na prescrição. Ele pode começar antes: no momento em que a decisão terapêutica está sendo construída.
Uma lacuna que começa a ser preenchida
Os próprios autores do estudo destacam que a literatura sobre prescrição farmacêutica em hospitais tem se concentrado quase inteiramente em desfechos clínicos e organizacionais, deixando de lado a experiência do paciente internado. Isso faz sentido diante da realidade da internação aguda, marcada por tempo escasso e decisões rápidas. Mas é justamente por isso que estudos como este ganham relevância: eles trazem para o centro da discussão alguém que, até então, era mais observado do que ouvido.
Acesse o estudo através do link: https://link.springer.com/article/10.1007/s11096-026-02178-0


