A pneumonia adquirida no hospital (PAH) e a pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV) estão entre as infecções mais relevantes dentro do ambiente hospitalar, tanto pela gravidade clínica quanto pelo uso intensivo de antimicrobianos. Esses cenários frequentemente exigem terapias empíricas de amplo espectro, que, quando não são reavaliadas adequadamente, podem contribuir para resistência bacteriana, eventos adversos, falha terapêutica e aumento do tempo de internação.
Nesse contexto, os programas de stewardship antimicrobiano (ASP) têm sido amplamente discutidos como estratégia para otimizar o uso desses medicamentos. Entre os modelos existentes, a atuação liderada por farmacêuticos clínicos vem ganhando destaque por sua capacidade de integrar análise técnica, acompanhamento contínuo e suporte à decisão clínica.
O que o estudo avaliou
O estudo analisado é um ensaio clínico randomizado conduzido ao longo de 18 meses, envolvendo 700 pacientes com diagnóstico de PAH ou PAV. Os participantes foram divididos entre um grupo que recebeu cuidado padrão e outro que contou com intervenções estruturadas de stewardship lideradas por farmacêuticos clínicos.
As ações incluíram revisão diária das prescrições, ajuste baseado em resultados microbiológicos, monitoramento terapêutico, definição de duração adequada do tratamento, acompanhamento de eventos adversos e comunicação direta com a equipe multiprofissional.
O principal desfecho avaliado foi a adequação da prescrição antimicrobiana no terceiro dia de tratamento, considerado um ponto crítico para reavaliação da terapia empírica.
Principais resultados
Os dados mostram ganhos consistentes associados à intervenção farmacêutica:
- A adequação das prescrições aumentou de 60,8% para 77,6%
- A taxa de cura clínica passou de 74,3% para 84,4%
- O tempo médio de internação foi reduzido em 2,83 dias
- Houve redução de aproximadamente 10,9% na duração do tratamento antimicrobiano
- Eventos adversos relacionados a antimicrobianos foram menos frequentes
Além disso, observou-se redução nas readmissões hospitalares em 30 dias, sugerindo impacto também na continuidade do cuidado após a alta.
Onde ocorrem os principais ganhos
A análise detalhada mostra que os benefícios não estão concentrados em uma única intervenção, mas sim em um conjunto de ajustes ao longo da terapia:
- Revisão contínua da necessidade de antimicrobianos
- Ajuste de dose conforme características do paciente
- Redução do tempo de tratamento quando possível
- Troca de terapia intravenosa para via oral “switch therapy” em momento adequado
- Monitoramento ativo de segurança
No grupo sem intervenção, falhas nesses pontos foram frequentes, especialmente relacionadas à manutenção desnecessária de terapias de amplo espectro e à duração prolongada do tratamento.
Interpretação dos achados
Um dos pontos centrais do estudo é que a adequação da prescrição foi definida de forma abrangente, considerando não apenas a seleção do medicamento, mas também dose, via de administração, duração e necessidade de ajuste ao longo do tratamento.
Isso reforça que o uso racional de antimicrobianos depende de uma abordagem contínua e integrada, e não apenas de decisões pontuais no início da terapia.
Outro aspecto relevante é que os ganhos foram mais expressivos em um cenário sem um programa estruturado prévio, indicando que a implementação inicial de stewardship pode gerar impactos significativos em instituições com menor maturidade nesse processo.
Implicações para a prática farmacêutica
Os resultados reforçam o papel do farmacêutico clínico como agente ativo na gestão da farmacoterapia, especialmente em contextos de maior complexidade como pacientes com pneumonia hospitalar.
Entre os principais pontos:
- Atuação integrada à equipe multiprofissional
- Monitoramento contínuo da terapia antimicrobiana
- Aplicação de conhecimentos técnicos na otimização do tratamento
- Contribuição direta para a segurança do paciente
Além dos benefícios clínicos, o estudo sugere impacto relevante na utilização de recursos, com redução do tempo de internação e do uso de antimicrobianos.
Conclusão
O estudo evidencia que programas de stewardship antimicrobiano liderados por farmacêuticos clínicos podem melhorar de forma significativa a qualidade da prescrição, os desfechos clínicos e a eficiência do cuidado em pacientes com pneumonia hospitalar.
Embora os resultados dependam do contexto institucional, os dados reforçam a importância de estruturar esse tipo de estratégia como parte da rotina assistencial, ampliando o protagonismo do farmacêutico na segurança do paciente e no uso racional de antimicrobianos.
Acesse o artigo completo: https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2026.1700328/pdf

