Quando se fala em segurança de medicamentos pediátricos, a atenção do farmacêutico costuma ir direto ao princípio ativo: dose, intervalo de horário, diluição, via de administração, tempo de infusão e interação medicamentosa. Os excipientes, por outro lado, tendem a ser tratados como coadjuvantes inertes, presentes apenas para dar forma, sabor ou estabilidade à formulação. Uma revisão sistemática publicada na revista Farmacia Hospitalaria (2026), conduzida por pesquisadores da Universidade de Guadalajara, no México, mostra que essa suposição pode custar caro justamente na população mais vulnerável a ela: as crianças.
Um problema maior do que parece
Os excipientes estão presentes em aproximadamente 93% das formulações farmacêuticas. Só que a imaturidade fisiológica e metabólica da criança, especialmente do neonato e do lactente, muda completamente a forma como essas substâncias são metabolizadas e excretadas pelo organismo. Enzimas hepáticas fundamentais para metabolizar alguns excipientes, como a álcool desidrogenase e a glicina-N-aciltransferase, ainda estão em desenvolvimento nos primeiros anos de vida, o que pode levar ao acúmulo de metabólitos tóxicos mesmo em doses consideradas seguras para adultos.
A revisão, que analisou 98 publicações selecionadas a partir de mais de 690 referências, identificou 54 excipientes com potencial de toxicidade documentado em crianças, organizados em quatro grupos funcionais: agentes solubilizantes e tensoativos, conservantes e antioxidantes, edulcorantes e corantes, e um grupo diverso de outros aditivos.
Exemplos que chamam atenção na prática hospitalar
Entre os agentes solubilizantes, o propilenglicol se destaca por ter meia-vida de eliminação de 10,8 a 30,5 horas em lactentes, contra apenas 1,4 a 3,3 horas em adultos, o que favorece o acúmulo de metabólitos hepatotóxicos, nefrotóxicos e neurotóxicos. O etanol, presente em muitas formulações líquidas orais, tem absorção gastrointestinal elevada e atividade da enzima que o metaboliza reduzida a menos de 20% em crianças menores de 6 anos, sendo contraindicado nessa faixa etária mesmo em doses pequenas.
Entre os conservantes, o álcool benzílico é hoje contraindicado em menores de 3 anos pela imaturidade do mesmo sistema enzimático que também compromete o metabolismo do benzoato de sódio, outro conservante amplamente utilizado em xaropes e soluções orais multidose. Os parabenos, por sua vez, são associados a possíveis efeitos endócrinos e obesogênicos, além de interferir na ligação da bilirrubina à albumina, o que levanta preocupação especial em recém-nascidos com icterícia.
Já entre os edulcorantes, muitos deles onipresentes em formulações pediátricas justamente para melhorar a palatabilidade, o estudo aponta riscos que vão da toxicidade hepática por acúmulo de metanol no caso do aspartamo, até efeitos sobre a microbiota intestinal atribuídos à sucralose e ao acessulfame de potássio. A sacarina, por sua estrutura de sulfonamida, pode gerar reatividade cruzada em pacientes alérgicos a esse grupo de fármacos, um detalhe que raramente é lembrado na triagem de alergias.
A lacuna regulatória
Um dos pontos mais relevantes da revisão é a constatação de que a maioria dos excipientes avaliados não possui limites de dose estabelecidos especificamente para a população pediátrica pelas principais agências reguladoras. Quando existem parâmetros, eles costumam derivar de concentrações diárias aceitáveis definidas para uso alimentar, não farmacêutico, o que é uma extrapolação problemática dado o contexto de exposição terapêutica, muitas vezes prolongada e associada a comorbidades.
Os autores também destacam que a maior parte dos eventos tóxicos relatados na literatura está associada à sobreexposição, seja por concentração elevada, seja por tempo de uso prolongado, reforçando o princípio clássico da toxicologia de que a dose faz o veneno. O problema é que, na prática pediátrica, um único paciente frequentemente está exposto a múltiplos excipientes simultaneamente, através de diferentes medicamentos, e a literatura sobre interação cruzada entre esses aditivos é praticamente inexistente.
O papel do farmacêutico na seleção informada
Diante da escassez de medicamentos comerciais formulados especificamente para crianças, grande parte da terapêutica pediátrica ainda depende de fórmulas magistrais e de adaptações de produtos originalmente desenvolvidos para adultos. É exatamente nesse ponto que o farmacêutico hospitalar e o farmacêutico magistral assumem papel central: a escolha do veículo, do conservante e do edulcorante em uma formulação extemporânea não é um detalhe técnico secundário, é uma decisão clínica com implicações toxicológicas reais.
Iniciativas internacionais como a base de dados STEP, fruto de colaboração entre entidades europeias e americanas de formulação pediátrica, e veículos livre de excipientes de risco, como as bases Ora-Plus e SyrSpend, apontam um caminho possível. No Brasil, ainda não existe uma base de dados equivalente, o que reforça a importância de o farmacêutico hospitalar consultar ativamente a bula, a ficha técnica e a literatura toxicológica disponível antes de padronizar ou manipular uma formulação pediátrica, especialmente para neonatos e lactentes internados em UTI.
Inerte não é sinônimo de seguro
A principal lição prática desta revisão para quem atua na farmácia clínica e hospitalar é simples de enunciar, mas exige mudança de hábito: excipiente não é detalhe de formulação, é parte integrante da avaliação de segurança do medicamento. Perguntar não apenas “qual o princípio ativo e a dose”, mas também “quais excipientes essa formulação contém e se esse paciente pode recebê-los com segurança” deve ser rotina em qualquer análise farmacêutica de prescrição pediátrica, especialmente neste grupo de pacientes com imaturidade hepática ou renal, alergias conhecidas ou exposição concomitante a múltiplos medicamentos líquidos.
Leia a revisão completa no link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-seguridad-excipientes-medicamentos-pediatricos-impacto-articulo-S1130634326000243?


