Os medicamentos injetáveis representam uma parcela significativa dos custos hospitalares e fazem parte da rotina assistencial em ambientes críticos, centros cirúrgicos, unidades de terapia intensiva e serviços de emergência. No entanto, além do custo direto de aquisição, a preparação manual desses medicamentos envolve etapas complexas que podem aumentar o risco de erros, desperdícios e eventos adversos.
Uma revisão sistemática publicada na revista Anaesthesia avaliou as evidências clínicas, operacionais e econômicas relacionadas ao uso de produtos intravenosos “ready-to-administer” (RTA) – ou seja, medicamentos industrializados prontos para administração – em comparação com ampolas e frascos tradicionais preparados à beira-leito.
O que são medicamentos “ready-to-administer”?
Os produtos ready-to-administer são medicamentos fabricados e rotulados para uso imediato, eliminando etapas como:
- reconstituição
- diluição
- aspiração para seringas
- manipulação manual por profissionais assistenciais
Esses medicamentos são produzidos em ambientes controlados e seguem padrões rigorosos de esterilidade e qualidade.
Segundo o artigo, a principal proposta dessa estratégia é reduzir a manipulação de medicamentos em áreas clínicas, diminuindo riscos relacionados à preparação manual e melhorando a eficiência operacional.
O que o estudo avaliou
A revisão sistemática analisou 16 estudos conduzidos em diferentes contextos hospitalares, incluindo:
- UTIs
- centros cirúrgicos
- serviços de emergência
- unidades de anestesia
- enfermarias hospitalares
Os estudos avaliaram desfechos relacionados a:
- erros de medicação
- tempo de preparo
- desperdício de medicamentos
- custos operacionais
- eventos adversos
- impacto em fluxo de trabalho e produtividade
Os autores também revisaram documentos institucionais do NHS e outras fontes governamentais do Reino Unido para discutir implicações sistêmicas e barreiras de implementação.
Principais resultados encontrados
De forma consistente, os estudos demonstraram que os medicamentos prontos para administração estiveram associados a:
- redução de erros de preparo
- menor tempo de manipulação
- redução de desperdício de medicamentos
- melhora da eficiência operacional
- diminuição de interrupções no fluxo de trabalho
Além disso, vários estudos sugeriram redução de eventos adversos evitáveis relacionados a erros de medicação, embora os autores ressaltem que parte dessas evidências deriva de estudos observacionais e modelos econômicos.
Impacto nos erros de medicação
Um dos pontos mais relevantes discutidos pela revisão é a relação entre manipulação manual e risco de erro.
Os autores citam evidências mostrando que aproximadamente 10% das administrações intravenosas no Reino Unido envolvem algum tipo de erro, incluindo:
- diluição incorreta
- dose inadequada
- erro de volume
- falhas de rotulagem
- uso incorreto de diluentes
Em um dos estudos analisados, a preparação tradicional à beira-leito apresentou risco de erro 17 vezes maior em comparação aos produtos prontos para administração.
Outro dado relevante mostrou que, de 52 etapas envolvidas na preparação manual de medicamentos injetáveis, 30 poderiam ser eliminadas com o uso de seringas pré-preenchidas, incluindo 22 etapas consideradas potencialmente perigosas caso executadas incorretamente.
Ganhos operacionais e produtividade
Além da segurança, os estudos apontaram um impacto importante na eficiência assistencial.
Em ambientes críticos, o tempo necessário para preparo de medicamentos foi reduzido significativamente com produtos ready-to-administer. Em um estudo envolvendo noradrenalina em UTI, o tempo médio de preparo caiu de aproximadamente 15 minutos para cerca de 3 minutos por infusão.
Os autores estimaram que, em escala nacional, isso poderia representar economia anual de quase 34 mil horas de trabalho de enfermagem.
Outro aspecto discutido foi a redução da carga cognitiva dos profissionais em situações de alta pressão, como emergências e anestesia. A eliminação de etapas de preparo pode permitir maior foco em tarefas críticas relacionadas à segurança do paciente.
Desperdício de medicamentos e impacto econômico
A revisão também destacou o impacto econômico relacionado ao desperdício de medicamentos intravenosos.
Estudos incluídos mostraram perdas importantes associadas a:
- descarte parcial de medicamentos
- vencimento após preparo
- interrupções no fluxo de trabalho
- tempo gasto em documentação e descarte
Em alguns cenários, taxas de desperdício superiores a 50% foram observadas em medicamentos intravenosos preparados manualmente.
Embora os produtos ready-to-administer tenham custo inicial de aquisição mais elevado, os modelos econômicos sugerem que parte desse investimento pode ser compensada pela redução de:
- erros evitáveis
- desperdício
- tempo de preparo
- eventos adversos
- custos indiretos relacionados à internação
Segurança microbiológica e manipulação
Outro ponto abordado pelo artigo foi o risco microbiológico associado à manipulação manual de medicamentos.
Quanto maior o número de etapas de preparo, maior a chance de contaminação e falhas assépticas. Em auditorias microbiológicas citadas na revisão, microrganismos potencialmente patogênicos foram encontrados em seringas intravenosas preparadas em ambiente clínico.
Nesse contexto, a utilização de medicamentos industrializados prontos para administração pode representar uma estratégia adicional de mitigação de risco.
Limitações e desafios
Apesar dos resultados favoráveis, os autores destacam limitações importantes:
- heterogeneidade metodológica entre os estudos
- predominância de estudos observacionais
- análises econômicas dependentes de contexto local
- escassez de dados específicos do Reino Unido
Além disso, o uso ampliado de produtos ready-to-administer também pode gerar desafios relacionados a:
- armazenamento
- maior variedade de apresentações
- risco de seleção incorreta entre apresentações semelhantes
- geração de resíduos plásticos
Por isso, os autores reforçam que essa estratégia não deve ser vista como solução isolada, mas como parte de um programa mais amplo de segurança medicamentosa.
O papel da farmácia hospitalar
A implementação segura e eficiente de medicamentos ready-to-administer depende diretamente da atuação da farmácia hospitalar.
O farmacêutico pode contribuir em diversas frentes:
- avaliação de custo-efetividade
- análise de risco e segurança
- seleção padronizada de apresentações
- gestão de estoque e armazenamento
- treinamento multiprofissional
- monitoramento de eventos adversos e erros de medicação
Além disso, a farmácia clínica possui papel importante na integração dessas tecnologias aos programas institucionais de segurança do paciente.
Conclusão
As evidências analisadas pela revisão sugerem que medicamentos intravenosos prontos para administração podem contribuir para redução de erros de preparo, desperdício e tempo de manipulação, além de melhorar a eficiência operacional em diferentes ambientes hospitalares.
Embora ainda existam limitações metodológicas e desafios de implementação, os resultados reforçam o potencial dessas estratégias como parte de programas voltados à segurança medicamentosa e otimização de recursos hospitalares.
Acesse o artigo pelo link: https://associationofanaesthetists-publications.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/anae.70122


