A cena se repete em muitos serviços de oncologia pelo Brasil: uma paciente recém-diagnosticada com câncer de mama, uma prescrição de quimioterapia com margem terapêutica estreita e uma lista de dúvidas que muitas vezes não cabem na consulta médica. É justamente nesse espaço, entre a prescrição e a administração do medicamento, que a assistência e a atenção farmacêutica se tornam decisivas. Uma revisão integrativa publicada na Revista Universitária Brasileira, conduzida por pesquisadores do Centro Universitário Brasileiro (UNIBRA), reuniu a literatura dos últimos anos sobre o tema e traz um panorama útil para quem atua ou pretende atuar nessa área.
Um recorte sobre uma neoplasia que lidera as estatísticas
O câncer de mama é a neoplasia mais incidente entre mulheres no Brasil e no mundo, e também a principal causa de morte por câncer nessa população. Com cerca de 74 mil novos casos estimados por ano no país no triênio 2023-2025, a doença concentra grande parte da rotina dos serviços de oncologia, com tratamentos que combinam cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia e terapia biológica, dependendo do estadiamento e das características biológicas do tumor.
A revisão, do tipo integrativa, reuniu estudos nacionais e internacionais publicados entre 2017 e 2023 sobre assistência farmacêutica e atenção farmacêutica no contexto oncológico, com foco específico, sempre que possível, no câncer de mama. Um achado inicial dos próprios autores já é revelador: apesar da robustez da literatura sobre os benefícios do cuidado farmacêutico na prática clínica em geral, ainda existe uma lacuna real quando o recorte é especificamente essa neoplasia.
Onde o farmacêutico realmente faz diferença
Os estudos reunidos na revisão convergem para pontos de intervenção bem definidos. O primeiro é a detecção de erros de prescrição, problema recorrente e com potencial de causar dano real ao paciente oncológico. Em um hospital de ensino especializado em oncologia, boa parte das intervenções farmacêuticas consistiu em incluir informações ausentes, ajustar doses e corrigir prescrições inadequadas. Outro estudo, que analisou quase 4.400 prescrições ao longo de um ano, identificou erros de dose, uso de medicamentos inadequados e interações medicamentosas, todos detectados pela análise farmacêutica antes da dispensação ao paciente.
O segundo ponto é a adesão ao tratamento, especialmente relevante em terapias orais prolongadas como o tamoxifeno, amplamente usado na hormonioterapia adjuvante do câncer de mama. Um dos estudos revisados mostrou que o acompanhamento farmacoterapêutico contribuiu diretamente para melhorar a adesão a esse medicamento, com intervenções que ajudaram a prevenir e reduzir problemas relacionados à farmacoterapia ao longo do tratamento.
O terceiro ponto, talvez o menos discutido na prática cotidiana, é a dimensão humana do cuidado. Um dos estudos citados utilizou fotografias e narrativas das próprias pacientes para captar a experiência subjetiva de conviver com medicamentos durante o tratamento oncológico, reforçando que o gerenciamento da terapia medicamentosa vai além da checagem técnica e passa também pelo acolhimento e pela escuta.
O impacto econômico também aparece nos dados
Um dos estudos mais citados na revisão, conduzido em um hospital oncológico brasileiro, quantificou o valor financeiro das intervenções farmacêuticas: cada intervenção realizada gerou, em média, uma economia de R$126,78 para a instituição, com taxa de aceitação de 98% por parte da equipe médica. Um estudo holandês trouxe um padrão semelhante em outro contexto: entre 75 pacientes em tratamento quimioterápico, 31 apresentaram interações medicamentosas identificadas pelo farmacêutico, e em 20 desses casos a intervenção resolveu o problema, com 94% de aceitação pela equipe médica das recomendações de modificação ou suspensão da prescrição.
Esses números reforçam um argumento que costuma ser difícil de sustentar apenas com discurso qualitativo: a atuação farmacêutica em oncologia não é apenas boa prática clínica, é também uma intervenção com retorno econômico mensurável para a instituição de saúde.
A lacuna que a própria revisão aponta
Vale destacar a conclusão mais honesta do estudo: apesar dos efeitos positivos evidenciados, ainda existem poucos trabalhos que tratam especificamente da aplicação da assistência e da atenção farmacêutica no contexto do câncer de mama, em comparação à literatura mais ampla sobre cuidado farmacêutico em oncologia como um todo. Isso significa que boa parte do que se sabe hoje sobre o tema ainda é extrapolado de evidências gerais em oncologia, e não de estudos desenhados especificamente para essa população.
O que isso significa para a farmácia hospitalar brasileira
Para o farmacêutico clínico que atua ou deseja atuar em oncologia, a revisão reforça um roteiro de atuação já conhecido, mas que vale reafirmar: análise crítica de cada prescrição de antineoplásico, atenção redobrada a dose, diluentes e tempo de infusão dado o índice terapêutico estreito dessas terapias, acompanhamento ativo da adesão em tratamentos orais prolongados e disponibilidade real para esclarecer dúvidas da paciente sobre efeitos adversos e manejo do dia a dia. A resolução nº 585/2013 do Conselho Federal de Farmácia já respalda essas atribuições clínicas, e a RDC nº 220/2004 da ANVISA exige a presença do farmacêutico na equipe multiprofissional responsável pelo tratamento antineoplásico. O desafio, como a própria revisão aponta, não é mais convencer sobre a relevância dessa atuação, mas ampliar sua institucionalização e gerar mais evidência específica sobre seu impacto no câncer de mama, a neoplasia que mais afeta as mulheres brasileiras.
Leia a revisão completa no link: https://revistaub.com/index.php/RUB/article/view/109



