Prevenir um câncer antes que ele apareça é uma proposta atraente, mas que sempre esbarra na mesma pergunta prática: vale a pena expor uma mulher saudável, ainda que de alto risco, a anos de tratamento medicamentoso? Os resultados de dez anos do estudo IBIS-II Prevention, apresentados no San Antonio Breast Cancer Symposium de 2019 e publicados simultaneamente na The Lancet, trazem um dado que reforça essa discussão: o efeito protetor do anastrozol continua presente quase seis anos depois de a paciente ter parado de tomar o medicamento.
O desenho do estudo
O IBIS-II Prevention foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido pelo International Breast Cancer Intervention Studies sob liderança de Jack Cuzick, do Queen Mary University of London. Entre 2003 e 2012, 3.864 mulheres na pós-menopausa com risco aumentado de câncer de mama foram recrutadas, com critérios de elegibilidade como ter duas ou mais parentes de primeiro grau com a doença, ou mãe ou irmã diagnosticada antes dos 50 anos, ou com câncer bilateral.
As participantes foram randomizadas para receber anastrozol (1.920 mulheres) ou placebo (1.944 mulheres) por cinco anos. A adesão ao tratamento nesse período foi de 74,6% no grupo anastrozol e 77,0% no grupo placebo, sem diferença estatisticamente significativa entre os braços, o que reforça a robustez da comparação.
O que os dez anos de acompanhamento mostraram
Com uma mediana de acompanhamento de 10,9 anos, o estudo registrou 241 casos de câncer de mama no total, com redução de 50% no risco entre as mulheres que haviam recebido anastrozol em comparação ao placebo (HR 0,50; IC 95% 0,38-0,65; p<0,0001). O dado mais relevante para a discussão sobre prevenção de longo prazo está na análise por período: a redução de risco foi maior nos primeiros cinco anos, durante o tratamento ativo (HR 0,39), mas permaneceu estatisticamente significativa mesmo após os cinco anos seguintes, já sem o medicamento em uso (HR 0,63; p=0,015). A diferença entre os dois períodos não foi estatisticamente significativa, o que sugere que o efeito protetor não desaparece simplesmente porque o tratamento terminou.
O benefício foi específico para os subtipos de tumor que dependem da via estrogênica: houve redução de 54% no câncer de mama invasivo com receptor de estrogênio positivo, com efeito mantido no período pós-tratamento, mas nenhuma redução significativa foi observada para tumores com receptor de estrogênio negativo. Essa seletividade é esperada, já que o anastrozol atua justamente bloqueando a aromatização de andrógenos em estrogênio, e reforça a importância de caracterizar corretamente o perfil de risco tumoral antes de indicar a profilaxia.
Segurança e um comparativo direto com o tamoxifeno
Do ponto de vista de segurança, não foram identificados novos eventos adversos além dos já relatados em 2013, principalmente dores musculares leves e fogachos, sem excesso de fraturas ou outros eventos graves associados ao anastrozol. A mortalidade geral não diferiu entre os grupos, e o número de mortes por câncer de mama foi baixo demais (cinco no total) para permitir conclusões sobre impacto na mortalidade específica, o que os próprios autores reconhecem como uma limitação que exigirá seguimento mais longo.
Um dos pontos mais citados da apresentação é a comparação indireta com o tamoxifeno: para prevenir um caso de câncer de mama, seriam necessárias tratar 29 mulheres com anastrozol por cinco anos, contra 49 mulheres com tamoxifeno no mesmo período, segundo estimativas dos autores. Esse número, somado ao perfil de efeitos adversos mais favorável do anastrozol em relação a eventos tromboembólicos e câncer de endométrio historicamente associados ao tamoxifeno, foi a base para a recomendação de Cuzick de que o anastrozol deveria ser a terapia preferencial de prevenção em mulheres pós-menopausadas de alto risco, reservando o tamoxifeno para casos de intolerância aos inibidores de aromatase.
O que isso significa para a farmácia clínica
Para o farmacêutico que atua em oncologia ou em ambulatórios de alto risco para câncer de mama, esses dados reforçam um ponto prático de conversa com a equipe médica e com a paciente: a decisão sobre quimioprevenção com inibidor de aromatase não deveria ser vista como um compromisso limitado aos cinco anos de tratamento ativo, mas como uma intervenção com efeito residual relevante mesmo depois de suspensa. Isso pode pesar na avaliação de custo-benefício para pacientes que hesitam em iniciar uma terapia preventiva de longo prazo.
Vale registrar, como boa prática de leitura crítica, que o estudo foi financiado pela AstraZeneca (fabricante do anastrozol), pela Cancer Research UK e pelo National Health and Medical Research Council da Austrália, e que o próprio pesquisador principal declara atuação como consultor para a Myriad Genetics. Isso não invalida os achados, publicados em periódico de alto rigor e com desenho metodológico robusto, mas é informação relevante para qualquer avaliação crítica da literatura em farmacoterapia oncológica.
Leia o estudo completo no link: https://oncologiabrasil.com.br/anastrozol-previne-cancer-de-mama-mesmo-apos-interrupcao-de-seu-uso/



