A resistência antimicrobiana é hoje reconhecida pela OMS como uma das maiores ameaças à saúde pública global. Os números são contundentes: em 2016, 700 mil mortes no mundo foram atribuídas a infecções por microrganismos resistentes – e as projeções indicam que, mantida a tendência atual, esse número pode chegar a 10 milhões de mortes por ano até 2050, superando as mortes por câncer.
Diante desse cenário, os Programas de Otimização do Uso de Antimicrobianos (PROA) consolidaram-se como estratégia central para enfrentar o problema. Atuando por meio de equipes multidisciplinares – com farmacêuticos, infectologistas e microbiologistas clínicos -, os PROA buscam garantir o uso racional dos antimicrobianos disponíveis e prolongar sua vida útil, sem abrir mão dos melhores desfechos clínicos para o paciente com infecção grave.
Mas implementar um PROA efetivo não é simples. A variabilidade nas práticas de prescrição, a escassez de pessoal especializado, os recursos limitados e a necessidade de monitoramento contínuo são desafios reais. É nesse contexto que ferramentas digitais e inteligência artificial (IA) entram como potenciais aliadas – e é exatamente esse potencial que um protocolo de revisão sistemática publicado recentemente na Farmacia Hospitalaria se propõe a mapear com rigor.
O que são os PROA e qual é o papel do farmacêutico
Os PROA são programas estruturados que atuam em três frentes principais: qualidade da prescrição antimicrobiana, controle do consumo e monitoramento de desfechos clínicos e microbiológicos. Seus objetivos incluem identificar o patógeno causador da infecção, minimizar efeitos adversos dos antibióticos – incluindo o desenvolvimento de resistência – e promover o uso racional dos tratamentos disponíveis.
O farmacêutico hospitalar é um dos pilares dessa estrutura. Sua atuação abrange desde a revisão de prescrições e a identificação de inadequações terapêuticas até a orientação de equipes sobre escolha de antimicrobianos, ajuste de dose e transição para via oral. Em muitos centros, é o farmacêutico quem coordena os indicadores de processo e resultado que sustentam a avaliação do PROA ao longo do tempo.
Onde entram as ferramentas digitais e a IA
A digitalização das informações clínicas – por meio de prontuários eletrônicos e plataformas integradas – criou uma oportunidade concreta: analisar grandes volumes de dados para apoiar decisões em tempo real.
Nesse cenário, diferentes tecnologias vêm sendo exploradas em associação com os PROA:
Sistemas de suporte à decisão clínica (CDSS): alertas e recomendações automáticas integradas ao fluxo de prescrição, sinalizando interações medicamentosas, doses inadequadas ou ausência de cobertura para o patógeno identificado.
Machine learning e modelos preditivos: algoritmos treinados para identificar padrões de resistência, prever risco de infecção por microrganismos multirresistentes ou estimar a probabilidade de falha terapêutica com base no perfil do paciente.
Ferramentas de monitoramento de consumo: plataformas que automatizam o cálculo de indicadores como DDD (dose diária definida) e Days of therapy (DOT), facilitando a comparação entre unidades e ao longo do tempo.
Aplicações móveis e e-saúde: recursos voltados à educação e ao suporte de equipes, facilitando o acesso a protocolos, guias terapêuticos e dados microbiológicos locais diretamente na beira do leito.
O argumento central é que, diante da enorme quantidade de dados clínicos gerados no manejo de infecções graves, a IA pode processar informações com uma velocidade e precisão que excedem a capacidade humana – reduzindo erros, otimizando fluxos de trabalho e gerando análises que orientam intervenções mais rápidas e precisas.
O que o protocolo de revisão propõe investigar
O artigo publicado na Farmacia Hospitalaria descreve o protocolo de uma revisão sistemática registrada no PROSPERO (CRD42024601221), conduzida por farmacêuticos hospitalares espanhóis de diferentes instituições. O objetivo é analisar, de forma estruturada e com rigor metodológico, o impacto de ferramentas digitais e IA nas intervenções realizadas pelos PROA hospitalários – medido a partir dos indicadores já estabelecidos: consumo de antimicrobianos, desfechos clínicos e resultados microbiológicos.
A revisão seguirá a metodologia PRISMA-P e incluirá estudos publicados entre 2014 e 2024 nas bases PubMed, Scopus e Cochrane Library. Serão elegíveis ensaios clínicos randomizados, estudos de intervenção e estudos observacionais envolvendo pacientes adultos hospitalizados em uso de antimicrobianos.
A avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos será feita por dois revisores independentes, utilizando ferramentas validadas como RoB-2, ROBINS-I e a Escala Newcastle-Ottawa, conforme o desenho de cada estudo. A qualidade geral das evidências será graduada pelo sistema GRADE.
Um ponto importante: os autores já reconhecem de antemão que a heterogeneidade das intervenções e dos indicadores utilizados nos estudos pode limitar a realização de uma metanálise. Por isso, os resultados serão sintetizados de forma narrativa, buscando identificar padrões e tendências ao longo do conjunto de evidências disponíveis.
Por que esse protocolo importa agora
A publicação de um protocolo – e não de resultados finais – pode parecer, à primeira vista, uma limitação. Mas há um valor importante nessa transparência metodológica: ao registrar e publicar o protocolo antes de conduzir a revisão, os pesquisadores assumem publicamente seus critérios de inclusão, hipóteses e métodos de análise, reduzindo o risco de vieses na condução e na interpretação dos resultados.
Além disso, o timing é relevante. O interesse por IA aplicada à saúde cresceu de forma acelerada nos últimos anos, muitas vezes à frente das evidências. Uma revisão sistemática bem conduzida sobre o tema pode oferecer uma fotografia mais realista do que de fato funciona, em quais contextos e com quais limitações – informação que os gestores de PROA e os farmacêuticos clínicos precisam para tomar decisões fundamentadas sobre adoção dessas tecnologias.
O que esperar dos resultados
Quando concluída, a revisão deverá mapear o estado atual da evidência sobre ferramentas digitais e IA nos PROA hospitalários, identificando quais tecnologias têm impacto demonstrado nos indicadores de consumo, qualidade da prescrição e desfechos clínicos – e quais ainda carecem de evidência robusta.
Os próprios autores reconhecem que a rápida evolução tecnológica pode tornar algumas intervenções descritas nos estudos analisados rapidamente obsoletas. Ainda assim, a revisão tem o potencial de oferecer uma base sólida para futuras diretrizes e para orientar a implementação de tecnologias em equipes PROA de maneira mais estruturada e baseada em evidências.
Para os farmacêuticos hospitalares que atuam ou que pretendem estruturar PROA em suas instituições, acompanhar o desenvolvimento desta revisão é uma forma de se manter na fronteira do conhecimento sobre um tema que tende a se tornar cada vez mais central na prática clínica.
Conclusão
A resistência antimicrobiana não espera. E os PROA, embora eficazes, enfrentam desafios operacionais reais que ferramentas digitais e IA têm potencial de ajudar a superar. O protocolo publicado na Farmacia Hospitalaria sinaliza um movimento importante: o de avaliar esse potencial com o mesmo rigor que se exige de qualquer intervenção clínica.
Os resultados desta revisão sistemática ainda estão por vir. Mas a pergunta que ela se propõe a responder – se e como a IA melhora os desfechos dos PROA hospitalários – já é, por si só, uma das mais relevantes para a farmácia hospitalar nos próximos anos.
Acesse o protocolo completo através do link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-el-papel-herramientas-digitales-articulo-S1130634326000267


