Durante décadas, o sucesso em terapia intensiva foi medido por uma única métrica: o paciente saiu vivo da UTI? Com os avanços nas últimas décadas, as taxas de mortalidade em unidades de cuidados intensivos caíram de forma expressiva. Essa é, sem dúvida, uma conquista enorme da medicina moderna. Mas ela revelou um problema que antes ficava encoberto pela própria mortalidade: muitos dos pacientes que sobrevivem à UTI chegam para casa profundamente diferentes de quem eram antes.
Fraqueza muscular severa que dificulta até levantar da cama. Lapsos de memória e dificuldade de concentração que persistem por meses. Ansiedade, depressão e pesadelos que não desaparecem depois da alta hospitalar. Esse conjunto de alterações físicas, cognitivas e psicológicas que surgem após uma internação em terapia intensiva tem um nome: síndrome pós-cuidados intensivos, conhecida pela sigla em inglês PICS (Post-Intensive Care Syndrome).
Um artigo especial publicado na Farmacia Hospitalaria, escrito por farmacêuticos hospitalares de mais de dez hospitais espanhois, sistematiza a epidemiologia, a fisiopatologia e, principalmente, o papel do farmacêutico na prevenção e no manejo do PICS. É uma leitura importante para qualquer profissional que atua, ou que pretende atuar, em cuidados críticos.
O que é o PICS e por que ele importa
O termo PICS foi formalmente definido em 2010 pela Sociedade Americana de Medicina de Cuidados Críticos para descrever as alterações novas e persistentes no funcionamento físico, cognitivo e mental que ocorrem após uma internação na UTI, excluídas outras causas como acidente vascular cerebral ou traumatismo craniano.
Na prática, o PICS se manifesta em três dimensões que frequentemente coexistem no mesmo paciente.
A dimensão física tem como principal expressão a fraqueza muscular adquirida na UTI, conhecida pela sigla ICUAW. Trata-se de uma perda difusa e simétrica de força muscular esquelética, que pode incluir dificuldade no desmame do ventilador mecânico, alterações na fala e na deglutição e fraqueza generalizada dos membros. Seus mecanismos são múltiplos: mediadores inflamatórios, desequilíbrios eletrolíticos, disfunção endócrina, desnutrição e, possivelmente, deficiência de vitamina D.
A dimensão cognitiva inclui déficits de memória, velocidade de processamento e atenção que podem persistir por anos após a alta. Períodos prolongados de hipoglicemia, hipoxemia e, especialmente, delirium durante a internação na UTI são fatores de risco bem estabelecidos para esse tipo de comprometimento. O estudo BRAIN-ICU, conduzido com mais de 800 pacientes, mostrou associação entre maior duração do delirium e pior desempenho cognitivo em longo prazo.
A dimensão psicológica engloba depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). A experiência de ser paciente de UTI é frequentemente descrita como isolante, aterrorizante e desumanizadora. Dor contínua, desorientação por sedação prolongada, sensação de perda de controle e memórias fragmentadas do período de internação contribuem para sequelas em saúde mental que podem durar anos.
Há ainda uma dimensão pouco discutida: o PICS familiar, ou PICS-F. Os familiares de pacientes internados em UTI também podem desenvolver alterações psicológicas significativas de longo prazo. Até 75% dos familiares desenvolvem sintomas compatíveis com o PICS-F, e aproximadamente um terço necessita de medicação psiquiátrica para o manejo. A ansiedade é o problema mais comum, mas depressão, privação de sono e luto complicado também fazem parte do quadro.
Os números que contextualizam o problema
As cifras epidemiológicas são expressivas. Alterações físicas estão presentes em 25 a 80% dos sobreviventes adultos de UTI, com prevalência ainda maior entre os que tiveram sepse. Disfunção cognitiva ocorre em até 80% dos sobreviventes adultos. Taxas de TEPT podem alcançar 50% nessa população, persistindo por anos.
Um estudo com 406 pacientes adultos de UTI encontrou que 64% apresentavam uma ou mais manifestações do PICS aos três meses de alta, e 56% ainda as apresentavam aos doze meses. A coexistência de comprometimento em dois ou mais domínios, especialmente cognitivo e psicológico, foi frequente e persistente ao longo do tempo.
O impacto socioeconômico também é relevante. Um estudo britânico mostrou que, um ano após a alta, 22% dos sobreviventes de UTI ainda necessitavam de ajuda diária, geralmente fornecida por familiares não remunerados, e 28% relataram impacto negativo nos rendimentos familiares.
O bundle ABCDEF: prevenção começa na UTI
A melhor estratégia para o PICS é a prevenção, e ela começa ainda durante a internação na UTI. O bundle ABCDEF é uma abordagem estruturada em seis componentes que visa coordenar o cuidado do paciente crítico com o objetivo de reduzir a incidência de PICS. Cada letra representa uma intervenção:
A é avaliar, prevenir e controlar a dor, priorizando abordagens multimodais e não farmacológicas, e garantindo que a analgesia preceda a sedação. B são os protocolos de despertar espontâneo e de respiração espontânea, com interrupção diária da sedação e tentativas programadas de desmame ventilatório. C é a escolha criteriosa de analgesia e sedação, reavaliada diariamente pela equipe multidisciplinar. D é a avaliação, prevenção e manejo do delirium, com ênfase em abordagens não farmacológicas e uso criterioso de antipsicóticos. E é a mobilidade precoce e o exercício físico, com programas de reabilitação iniciados o quanto antes. F é o engajamento da família, reconhecendo que a presença e a participação dos familiares no cuidado têm impacto sobre o paciente e sobre o próprio risco de PICS-F.
Extensões do bundle incluem G, de boa comunicação com a família e com as equipes de transição, e H, de material informativo sobre o PICS entregue a pacientes e familiares ao longo da internação.
Em pediatria, o bundle foi adaptado incorporando componentes específicos relacionados ao suporte nutricional, ao ritmo circadiano e à medicina humanística voltada ao acompanhamento domiciliar após a alta.
Onde o farmacêutico entra nessa história
O farmacêutico tem um papel estrutural na prevenção e no manejo do PICS, que vai muito além da validação de prescrições. O artigo detalha as frentes de atuação de forma clara.
Na otimização da analgesia e sedação, o farmacêutico contribui para a implementação de estratégias multimodais que reduzam a exposição a opioides e benzodiazepínicos, escolha de sedativos associados a menor duração de ventilação mecânica e menor incidência de delirium, e monitorização por escalas validadas como a RASS. O ajuste posológico individualizado com base nas características farmacocinéticas e farmacodinâmicas do paciente crítico, considerando obesidade, disfunções orgânicas e outros fatores, pode contribuir para a otimização da sedação e para reduzir fatores associados ao desenvolvimento do PICS.
No controle metabólico, tanto hipoglicemia quanto hiperglicemia se associam a maior risco de deterioração cognitiva a longo prazo. A participação do farmacêutico na vigilância glicêmica e na otimização do tratamento com insulina é um ponto de cuidado com impacto direto no prognóstico do PICS.
Na promoção da desprescrição, o artigo chama atenção para um problema frequente e subestimado: medicamentos iniciados para o manejo agudo do delirium na UTI, especialmente antipsicóticos e benzodiazepínicos, frequentemente chegam à alta ainda prescritos, sem plano de reavaliação ou retirada. A continuidade indevida dessas drogas pode perpetuar sintomas ou precipitar novos problemas. O farmacêutico está em posição privilegiada para identificar e corrigir essas situações nas transições de cuidado.
Na conciliação medicamentosa nas transições UTI-enfermaria e ao longo da alta, a atuação farmacêutica permite identificar discrepâncias, duplicidades, interações, erros de dosagem e situações de polifarmácia que, se não corrigidas, podem comprometer a recuperação funcional e psicológica do paciente.
Na consulta pós-UTI, que ainda é uma realidade incipiente no Brasil mas já presente em outros países, a participação do farmacêutico tem demonstrado resultados concretos. Um estudo citado no artigo, conduzido no Centro de Recuperação da UTI da Universidade de Vanderbilt, analisou 62 consultas ambulatoriais pós-UTI com participação farmacêutica. A mediana de intervenções por paciente foi de quatro, e todos os pacientes revisados receberam ao menos uma intervenção, incluindo suspensão de medicamentos em 39% dos casos, incorporação de novos fármacos em 32% e detecção de eventos adversos em 16%.
O que o PICS ensina sobre o cuidado em saúde
Existe uma tendência, na saúde, de tratar o paciente como episódico. A UTI cuida do paciente durante a crise; a alta encerra o ciclo. O PICS questiona essa lógica de forma direta e contundente. A internação na UTI não é um evento isolado: ela deixa marcas que afetam a vida do paciente e de sua família por meses ou anos.
Para o farmacêutico em formação, o PICS é um convite a pensar sobre farmacoterapia de forma longitudinal. As decisões tomadas durante a internação, qual sedativo usar, por quanto tempo, em qual dose, com qual estratégia de retirada, têm consequências que se estendem muito além da alta. Compreender essas conexões é parte essencial do raciocínio clínico de um farmacêutico que atua em cuidados críticos.
Para o farmacêutico já na prática, o desafio é integrar essa perspectiva ao cotidiano de uma UTI que funciona em alta velocidade. O bundle ABCDEF oferece uma estrutura prática para isso. E a participação ativa do farmacêutico em cada uma de suas etapas é, como o artigo demonstra, uma intervenção com impacto clínico real.
Conclusão
A síndrome pós-cuidados intensivos é uma das consequências mais subestimadas da medicina intensiva moderna. Com taxas que chegam a 80% de sobreviventes com alguma forma de comprometimento, e com impacto que se estende à família e ao entorno social do paciente, o PICS representa um desafio clínico e humanístico de primeira grandeza.
O farmacêutico tem papel essencial nesse cenário, atuando desde a prevenção durante a internação até o acompanhamento pós-alta em clínicas de recuperação. Conhecer essa síndrome, seus mecanismos e suas implicações farmacoterapêuticas é parte fundamental da formação de qualquer profissional que trabalhe com pacientes críticos.
Acesse o artigo completo através do link: https://www.revistafarmaciahospitalaria.es/es-sindrome-poscuidados-intensivos-epi demiologia-fisiopatologia-articulo-S1130634326000735


