A prescrição de medicamentos durante a gestação é um tema delicado, especialmente quando se trata de mulheres com gravidez de alto risco. Um estudo publicado no Journal of Hospital Pharmacy and Health Services (Locatelli et al., 2025) descreveu o perfil clínico, sociodemográfico e terapêutico de 312 gestantes de alto risco atendidas no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, em Porto Alegre (RS), entre setembro de 2021 e março de 2022.
A pesquisa analisou o uso de medicamentos em três fases distintas: pré-natal, internação para o parto e pós-parto imediato. O objetivo foi compreender como a farmacoterapia tem sido conduzida em cenários clínicos complexos, trazendo dados relevantes para a prática clínica e a formulação de políticas públicas.
Principais características das gestantes avaliadas
A média de idade foi de 25,6 anos, com predominância de mulheres com baixa escolaridade e sem inserção no mercado formal. A maioria das gestações não foi planejada (69,2%), e cerca de 18% apresentavam transtornos psiquiátricos prévios.
Durante a gestação, 80% das participantes tiveram pelo menos uma complicação clínica, sendo o diabetes gestacional a mais comum (37,8%), seguido por malformações fetais e hipertensão gestacional.
Uso de medicamentos: elevado, mas alinhado com diretrizes
As gestantes receberam, em média, 9 medicamentos durante o pré-natal, 11 na internação para o parto e 9 no pós-parto imediato. A maioria dos medicamentos utilizados está em conformidade com as recomendações nacionais e internacionais para uso na gravidez.
Alguns destaques incluem:
- Insulina NPH e regular, amplamente utilizadas para controle do diabetes gestacional.
- Metildopa, como principal anti-hipertensivo durante a gestação.
- Ácido fólico e sulfato ferroso, prescritos na maioria das gestantes desde o início da gestação.
- Dipirona, paracetamol e metoclopramida, comuns no manejo de dor, náuseas e febre.
Apesar do uso elevado, a prescrição seguiu padrões de segurança: grande parte dos fármacos estava classificada nas categorias A e B pelas agências reguladoras (FDA e TGA), indicando segurança relativa para o uso gestacional.
Internações e complicações frequentes
Quase um quarto das gestantes precisou de internação hospitalar durante a gravidez, principalmente por pré-eclâmpsia, controle glicêmico ou infecções urinárias. Durante o parto, os medicamentos mais usados foram ocitocina, dipirona e metoclopramida. Já no pós-parto, observou-se predominância de analgésicos, antieméticos e laxativos, refletindo o manejo dos sintomas comuns nesse período.
Outro ponto importante foi o uso de cabergolina em mulheres vivendo com HIV para inibir a lactação, e imunoglobulina anti-D em casos de incompatibilidade Rh.
O papel do farmacêutico e da atenção multiprofissional
O estudo destaca a importância de uma abordagem multidisciplinar no cuidado à gestante de alto risco. O farmacêutico hospitalar pode contribuir para a avaliação de risco-benefício dos medicamentos, garantir o uso racional e promover a adesão às diretrizes terapêuticas.
Também fica evidente a necessidade de educação em saúde, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, como o das gestantes avaliadas – muitas com baixa escolaridade e sem acesso pleno a informações sobre saúde reprodutiva.
Conclusão
A pesquisa reforça que a farmacoterapia em gestantes de alto risco é complexa, mas, quando bem conduzida, pode melhorar significativamente os desfechos maternos e neonatais. O uso racional de medicamentos, aliado a um pré-natal qualificado e à atuação integrada da equipe de saúde, é essencial para garantir a segurança de mães e bebês.
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Acesse o artigo completo: https://jhphs.org/sbrafh/article/view/1356



