Um vídeo curto, bem editado, com linguagem clara e um gancho que prende a atenção nos primeiros três segundos. Esse é o tipo de conteúdo que domina o feed de qualquer profissional de saúde ativo no TikTok ou no Instagram hoje. Mas ser bem produzido pedagogicamente significa estar cientificamente correto? Um estudo publicado na revista Patient Education and Counseling, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), testou exatamente essa suposição, e a resposta é desconfortável: não necessariamente.
O desenho do estudo
Os pesquisadores analisaram 2.000 vídeos publicados por 100 influenciadores digitais da saúde no Brasil, distribuídos igualmente entre cinco profissões: enfermagem, farmácia, medicina, nutrição e odontologia. Os perfis foram selecionados por uma taxa composta de engajamento, calculada a partir de seguidores, crescimento mensal, visualizações, curtidas e comentários, priorizando justamente o conteúdo de maior alcance, aquele com potencial real de moldar a percepção do público.
Cada vídeo foi avaliado por dois eixos distintos. O primeiro, a qualidade pedagógica, usou o instrumento ECVIH (Educational Content Validation Instrument in Health), validado para avaliação de material educativo em saúde, com 18 itens distribuídos em três domínios e pontuação de 0 a 36. O segundo, o embasamento em evidências, foi medido por um framework desenvolvido especificamente para o estudo, batizado de SASBE (Seção de Avaliação em Saúde Baseada em Evidências), com seis dimensões pontuadas de 0 a 12, comparando a mensagem central de cada vídeo com bases de referência clínica como UpToDate, Medscape e DynaMed. A confiabilidade entre avaliadores foi alta em ambas as escalas, com kappa ponderado entre 0,76 e 0,84.
O achado central: qualidade pedagógica não garante rigor científico
Os escores de qualidade pedagógica foram uniformemente altos entre as cinco profissões, variando de 28,2 a 32,0 em uma escala de 36. Já o embasamento em evidências foi mais baixo e muito mais variável, entre 7,2 e 9,3 em uma escala de 12. Quando os pesquisadores cruzaram as duas medidas, encontraram uma correlação positiva, mas apenas moderada (r = 0,49), com a qualidade pedagógica explicando somente 24% da variação no embasamento científico. Em outras palavras, um vídeo bem estruturado e didaticamente competente tem uma chance real, mas longe de garantida, de também estar bem fundamentado na literatura.
O dado mais preocupante aparece no nível do item individual: o critério que avalia se o conteúdo apresenta as evidências de forma completa, incluindo limitações e incertezas, foi sistematicamente o pior avaliado. Em nutrição, 44,6% dos vídeos não fizeram nenhuma ressalva sobre limitações da evidência citada; em medicina, esse número foi de 36,8%; em odontologia, 35,5%. E o achado mais contundente de todos: mesmo entre os vídeos no quartil mais alto de qualidade pedagógica, ou seja, os mais bem produzidos e didaticamente sofisticados, 18,8% ainda assim não fizeram nenhuma ressalva sobre incertezas científicas. Produção impecável e ausência total de nuance podem, e frequentemente convivem no mesmo vídeo.
A farmácia se destacou, e isso não é acaso
Entre as cinco profissões analisadas, a farmácia foi a única a apresentar desempenho consistentemente alto nos dois eixos simultaneamente: qualidade pedagógica estatisticamente equivalente à medicina, e o melhor escore de embasamento científico entre todas as categorias, com apenas 13,7% dos vídeos sem nenhuma ressalva sobre limitações da evidência, contra taxas de 35% a 45% em nutrição, medicina e odontologia. Os próprios autores atribuem esse resultado à forte orientação técnica da formação farmacêutica e à centralidade da prescrição baseada em evidência e da informação sobre medicamentos na rotina da profissão.
Isso não é um detalhe estatístico irrelevante para quem faz conteúdo digital na área farmacêutica. É evidência empírica de que o treinamento em farmacotécnica, farmacologia clínica e análise crítica de bula e literatura parece se traduzir, na prática, em comunicação digital mais responsável, mesmo em formatos curtos e otimizados para engajamento, que estruturalmente recompensam afirmações assertivas e simplificadas em detrimento de explicações condicionais.
O que isso significa para quem produz conteúdo em saúde
A implicação prática do estudo é direta: qualidade de produção não é proxy de confiabilidade científica, nem para quem consome, nem para quem produz o conteúdo. Um vídeo pode ter roteiro impecável, edição profissional e sequência lógica de ideias e, ainda assim, comunicar uma mensagem clínica sem qualquer menção às suas limitações, criando uma falsa sensação de certeza no espectador. Para o farmacêutico que cria conteúdo educativo, seja em redes sociais, seja em materiais para pacientes dentro do próprio serviço, a lição prática é simples de enunciar: incluir explicitamente, mesmo em formatos curtos, uma frase sobre o que a evidência ainda não sabe, sobre quando a recomendação não se aplica, ou sobre a força real da evidência citada. Os autores do estudo reforçam que essa competência de tradução científica responsável deveria ser incorporada de forma explícita tanto na formação profissional quanto nas diretrizes dos conselhos de classe sobre comunicação digital em saúde, que hoje tendem a regular a ética da promoção, mas não necessariamente a robustez da evidência apresentada.
Leia o estudo completo no link: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0738399126003460?via%3Dihub



