O diagnóstico de câncer colorretal costuma vir acompanhado de uma imagem mental específica: o oncologista discutindo o protocolo, o enfermeiro instalando a quimioterapia, o paciente enfrentando os efeitos colaterais. O que raramente aparece nesta cena é o profissional que, nos bastidores, confere cada prescrição antes que ela chegue ao leito e garante que o medicamento certo, na dose certa, seja preparado com segurança. Esse profissional é o farmacêutico hospitalar, e uma revisão sistemática publicada no Journal of Pharmacy Practice and Research traz evidência robusta de que essa presença faz diferença mensurável no desfecho do tratamento oncológico.
Um câncer que cresce, inclusive entre os mais jovens
O câncer colorretal é hoje um dos tipos mais comuns no Brasil, com estimativa de cerca de 53 mil novos casos por ano no país entre 2026 e 2028, segundo o INCA. Um dado que tem preocupado a comunidade médica internacionalmente é o aumento da incidência entre adultos com menos de 50 anos, uma faixa etária historicamente considerada de baixo risco para essa neoplasia, o que reforça a importância de não ignorar sinais como sangue nas fezes, mudança no funcionamento intestinal, dor ou inchaço abdominal, perda de peso sem explicação e cansaço persistente, e de manter em dia as consultas e exames de rastreamento.
O que a revisão sistemática avaliou
Conduzida por Coutsouvelis e colaboradores, a revisão selecionou nove estudos a partir de uma triagem inicial de 2.292 artigos, todos avaliando estratégias lideradas por farmacêuticos para reduzir erros relacionados à terapia antineoplásica. As intervenções analisadas incluíram revisão e monitoramento da farmacoterapia, acompanhamento de exames laboratoriais, manejo de efeitos colaterais e interações medicamentosas, suporte à adesão ao tratamento e orientação direta ao paciente, tanto para a quimioterapia endovenosa quanto para a oral, além de medicamentos de suporte como antieméticos.
O achado central: redução de erro em todos os estudos analisados
O resultado mais contundente da revisão é também o mais simples de comunicar: em todos os nove estudos incluídos, os grupos que contaram com a participação ativa do farmacêutico apresentaram menos erros relacionados a medicamentos do que os grupos de controle, sem a intervenção farmacêutica. Além de reduzir erros, a presença do farmacêutico também aumentou a capacidade da equipe de identificar e corrigir problemas relacionados à farmacoterapia que, de outra forma, poderiam passar despercebidos até chegarem ao paciente.
Isso não é um detalhe operacional menor quando se trata de terapia antineoplásica. Diferente de muitas classes de medicamentos, os agentes quimioterápicos têm índice terapêutico estreito, ou seja, a diferença entre a dose eficaz e a dose tóxica costuma ser pequena. Um erro de dose, de via de administração ou uma interação não identificada nesse contexto tem potencial de causar dano significativo, o que torna a dupla checagem farmacêutica uma camada de segurança especialmente relevante.
Além da checagem técnica: o cuidado que o paciente sente
Um ponto que a revisão também evidencia é que o papel do farmacêutico no cuidado oncológico vai além da conferência técnica da prescrição. As estratégias mapeadas nos estudos incluíram orientação direta ao paciente sobre o tratamento e seus efeitos colaterais, acompanhamento contínuo da adesão à terapia oral e suporte no manejo de sintomas, frentes de atuação que têm impacto direto na experiência do paciente durante um dos momentos mais vulneráveis de sua jornada de saúde.
Os próprios autores da revisão concluem que o farmacêutico deve ser considerado parte essencial, e não periférica, da equipe multiprofissional de cuidado oncológico, uma conclusão consistente com o que a prática clínica já demonstra diariamente em serviços de oncologia no Brasil.
O que isso significa para a farmácia hospitalar brasileira
Para o farmacêutico clínico que atua ou deseja atuar em oncologia, essa revisão sistemática funciona como evidência consolidada para justificar, perante a gestão hospitalar, a alocação de recursos e a ampliação da atuação clínica farmacêutica em serviços de quimioterapia. Para o público leigo, fica uma mensagem igualmente importante: ao lado do médico e do enfermeiro, existe um farmacêutico garantindo, silenciosamente, que cada etapa do tratamento seja segura. Reconhecer esse profissional como parte do cuidado é também reconhecer mais uma camada de proteção no enfrentamento de uma doença que, infelizmente, segue crescendo entre os brasileiros, inclusive os mais jovens.
Acesse a revisão através do link: https://doi.org/10.1002/jppr.1699
Outras fontes:
- INCA, Estimativa 2026–2028 (53 mil casos de câncer de cólon e reto por ano): https://futurodasaude.com.br/inca-estimativas-cancer-2026-2028/
- Sinais de alerta do câncer de intestino (INCA): https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/intestino



